A velha máxima “quem ama cuida” também vale para os bichos de estimação. Depois do boom da alimentação industrializada para cães e gatos, outros cuidados e mimos foram sendo incorporados às relações cada vez mais próximas, prazerosas e caras entre donos e seus pets. Hoje, o gasto médio mensal com banho, tosa, medicamentos, alimentos e veterinário é de cerca de R$ 300 para cães e R$ 100 para gatos, de acordo com a Anfal Pet (Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação), que também monitora o desempenho dos produtos de higiene e beleza para pets.
Nos últimos anos, a abertura de pet shops por todo país também disparou: são cerca de 40 mil, que faturam em média R$ 120 mil por ano, e mais outros 60 mil pontos-de-venda de produtos pet, que comercializam desde alimentos, passando por serviços de banho e tosa, medicamentos, roupas e produtos de higiene e beleza.
Em 2007, a população de cães era de 29,7 milhões, um crescimento de 3,12% em relação ao ano anterior. Já a população de gatos cresceu ainda mais, 7,03%, para 14 milhões. A Anfal Pet estima que essa população já tenha chegado a mais de 31 milhões de cães e 15 milhões de gatos e que cerca de 60% dos domicílios brasileiros têm algum animal de estimação.
Segundo maior mercado pet - Esses números colocam o Brasil como o segundo maior mercado do mundo em número de animais e em volume de produção. Os Estados Unidos, que lideram o ranking mundial do mercado, possuem 88 milhões de gatos e 75 milhões de cães, segundo dados de 2008 da APPMA - American Pet Products Manufacturers Association.
O cenário do consumo de alimentos é um bom indicador do potencial de crescimento de outras categorias. Os alimentos industrializados são oferecidos a apenas 45,32% dos animais de companhia, sendo que os demais são alimentados com sobras de mesa. "São aproximadamente 2 milhões de toneladas de arroz, carnes, leite e outros alimentos utilizados para alimentar nossos animais de companhia, consequentemente desviados da alimentação humana", afirma José Maria Parra, presidente da Anfal Pet.
O balanço da associação contabilizou um crescimento 4,26% de todo o mercado pet brasileiro em 2007, o que representa um faturamento em torno de US$ 4,1 bilhões, sendo que os produtos veterinários e de higiene e beleza respondem por 7% desse valor, cerca R$ 272, 7 milhões (veja quadro). Os dados de 2008 ainda não foram fechados, mas a Anfal Pet estima crescimento de cerca 5%, o que deve representar um faturamento de US$ 4,3 bilhões.

Tendências do mercado – De acordo com o estudo Pet Care Products in Brazil, apresentado em agosto de 2008 pelo Euromonitor, o alto preço dos produtos pet care é o principal obstáculo para o desenvolvimento do setor. Mesmo com a humanização nos cuidados com os animais de estimação, a maior parte dos proprietários é de baixa e média renda. Dessa forma, somente os donos mais abastados é que podem arcar com esse tipo de despesa. Entretanto, algumas empresas já começam a lançar produtos com preços mais acessíveis. O estudo cita o exemplo da Vetbrands, que lançou o MyPet para tratamento contra pulgas e carrapatos, com um preço cerca da metade das marcas líderes.
A boa notícia do levantamento é que as vendas de produtos pet care aumentaram 9% em valor, em 2008, em comparação com a média de crescimento anual de 3% durante o período objeto de análise. O desempenho positivo foi impulsionado tanto pela crescente “pet humanização”, como pelo aumento do poder de compra dos brasileiros.
Quanto ao maior crescimento da população de gatos em relação à de cães, o estudo avalia que as pessoas querem a companhia de um animal de estimação, mas não têm muito tempo disponível para passear eles ou de lhes ensinar truques básicos e, por isso, têm optado por gatos, que são mais independentes e o custo para mantê-los também é menor.
Outro aspecto apontado pelo Euromonitor é que a variedade de produtos oferecidos nos pet shops é bastante restrita, em virtude das lojas serem geralmente instaladas em locais pequenos. Embora já comecem a surgir lojas de grande porte, com melhores condições de oferecer produtos variados, elas estão restritas a grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Profissionalização – Se há algum tempo a abertura de pet shops virou uma verdadeira febre, a fase atual exige profissionalização, tanto de prestadores de serviços, como de fornecedores de produtos. Isso explica o sucesso de eventos como a como Pet South América, principal feira internacional para as linhas pet e veterinária da América Latina, que apresenta as novidades e tendências do setor.
A sétima edição, realizada em São Paulo, em setembro de 2008, contou com 260 expositores e recebeu mais de 20 mil visitantes. Em 2009, a feira antecipa-se para os dias 22 e 24 de julho, para abrigar o 34º WSAVA - Congresso Mundial de Veterinários para Pequenos Animais -, que acontece todos os anos em um continente diferente. De acordo com Ligia Amorim, diretora geral da Nielsen Business Media, organizadora do evento, o congresso já conta com 2,5 mil inscritos e a feira terá cerca de 270 expositores.
Lígia explica que o grande interesse pelo congresso é justificado pelo fato de a maioria dos veterinários serem também pequenos empreendedores, já que geralmente seus consultórios são também pontos-de-venda de produtos e serviços. “Eles buscam informações também melhorar o rendimento do seu negócio”.
Apesar da crise financeira, para Lígia, o potencial do mercado brasileiro é muito grande: “Enquanto que os serviços aqui equivalem a 13% do mercado pet, em países da Europa e nos Estados Unidos eles já respondem por 25% do faturamento do setor. Os produtos de higiene, cosméticos e acessórios também vêm se destacando a cada ano. Podemos constatar isso a cada edição da Pet South América”.
Inspiração nos EUA – A maior parte das fabricantes de produtos de higiene e beleza para pet entrou nesse mercado há menos de 10 anos, como é o caso da Pet Mais. A idéia de criar a empresa surgiu quando o proprietário visitou uma feira de produtos pet nos EUA e constatou que o Brasil estava muito atrás nesse mercado. A Pet Mais iniciou as atividades em 2003, em um pequeno salão em São Paulo, introduzindo novidades como a escova descartável, o tapete higiênico e os lenços umedecidos, que chegavam a ser motivo de piada.
Passados mais de 5 anos, a Pet Mais ganhou uma nova planta de 10 mil metros quadrados em Cotia (SP), conta com mais de 120 itens em seu catálogo e pretende lançar vários produtos em 2009. O mais recente lançamento da empresa foi o Petbiótico Limpa Casinha, que além de limpar, elimina os odores orgânicos de cães e gatos (fezes e urina) e tem ação desengordurante. O produto pode ser utilizado em casinhas, caminhas plásticas e quaisquer outros locais por onde os pets transitam.

Diversificação dos negócios - Para a Orba Química, a linha Pet Clean foi uma opção de diversificação dos negócios, após estudos sobre esse mercado e a constatação do crescimento das vendas de produtos veterinários. O carro-chefe da empresa é a linha de shampoos, mas a lista de produtos de higiene e embelezamento vai muito além, com máscaras de hidratação, gel dental, limpador
de orelha, desembaraçador de pelos, creme para escovar, tintura para pelos, eliminador de odores, perfumes, sabonetes e finalizadores, além de uma linha para lâminas, composta de resfriador e lubrificante de lâminas.
Miguel Celso S. Martins, diretor da Orba Química, conta que as vendas estão crescendo a cada mês. “Isso é fruto da qualidade dos produtos e do bom atendimento ao distribuidor, pet shop e consumidor final. Todos os produtos são desenvolvidos por um químico especializado e, após o desenvolvimento, são testados pelo veterinário e o técnico químico internos da Orba”, ressalta.
Havendo ou não retração do consumo por conta da crise financeira, Martins já traçou sua estratégia para enfrentar qualquer adversidade: “Se o mundo está em crise, exatamente por este motivo temos que trabalhar mais, pensar mais e lançar novos produtos, para aumentar o leque de itens e, consequentemente, tentar aumentar o faturamento. Como todo cliente reduzirá sua quantidade de compras, dando-se mais opções, pode-se obter o mesmo faturamento”, recomenda.
Novos produtos – A ampliação do leque de produtos também é a estratégia da Pet Society para crescer no mercado, introduzindo produtos para novas necessidades dos animais de estimação, como o Stress Away, indicado minimizar os efeitos do estresse nos animais; Bitter Max, produto amargo que inibe ações de lambedura e mordedura; Eye Clean Up, solução de limpeza para regiões dos olhos, focinhos e dobrinhas; Oil Redux System, para remover a oleosidade excessiva localizada na pelagem; Hydra-T, para hidratação de pele e pelagem; o Magic Crystal, spray finalizador de brilho, e o Protetor Solar FPS 30. Outros destaques são xampus para diversos tipos de pêlos, tonalizantes, deo-colônias, fluído desembaraçador de pelos, máscaras hidratantes, entre outros.
E por falar em novidade, já está disponível no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, na loja Gama Pet, o primeiro fraldário para cães do mundo, criado pela Dog’s Care, empresa de produtos voltados para a higiene e saúde dos pets e que acaba de lançar toda a linha de fraldas e tapetes higiênicos biodegradáveis. O tapete higiênico comum demora em média 500 anos pra se decompor na natureza e os da Dog’s Care se decompõem em 18 meses a partir da data de fabricação.
As fraldas utilizam a mesma tecnologia e material empregados nas fraldas de bebês. O produto é exclusivamente para xixi, sendo confeccionado em manta de celulose com gel em flocos que garante até seis horas de absorção, elásticos de ponta a ponta para proporcionar maior conforto, acabamento do orifício da cauda com costura reforçada para evitar vazamentos, esterilização para impedir proliferação de bactérias e fita adesiva reposicionável para melhor ajuste.
Opotunidades – Para Neil Barrientos, gerente regional de marketing para o Mercosul da Cognis, que fornece surfactantes suaves, ativos e emolientes para as indústrias de cosméticos e também de produtos pet care, apesar de os produtos serem mais caros que os shampoos e condicionadores comuns, as formulações pet ainda não evoluíram em benefícios. Ele cita como exemplo os wipes, amplamente utilizados nos Estados Unidos, mas que no Brasil existem poucas opções e com qualidade inferior. “A venda wipes tem grande potencial nesse mercado, especialmente com bactericidas”, avalia. Barrientos também vê oportunidades na diversificação de produtos, como os que oferecem proteção solar, os limpadores de ambientes e outros. “Quem estiver disposto a investir na segmentação, o retorno de compra será alto”.
O estudo do Euromonitor também aponta que o lançamento
de produtos mais acessíveis irá atrair uma base mais ampla de renda. No curto prazo, esta tendência levará a um maior crescimento em termos de volume de vendas do que em valor, mas espera-se que os donos de pet de média renda, cada vez mais conscientes da importância dos cuidados preventivos de seus animais, irão conduzir a um maior crescimento em termos de valor no longo prazo.
O estudo também prevê crescimento médio dos produtos pet care em valor de 4% entre 2008 e 2013, especialmente os voltados para a saúde. Para outros produtos pet care também se espera um bom desempenho, por conta do fluxo de novidades lançadas pelos fabricantes.