Não há dúvidas que cada vez mais as matérias-primas de origem vegetal fazem parte do universo cosmético. Indústrias de todo o mundo buscam por esses ingredientes para que seus produtos estejam mais e mais conectados com a tendência de usar itens menos agressivos ao meio ambiente. No XVIII Congresso Latino-americano e Ibérico de Químicos Cosméticos (Colamiqc), realizado pela Associação Centroamericana de Ciências Cosméticas (ACACC), no final de outubro, na capital da Guatemala, esse foi um dos assuntos principais. O próprio slogan do evento mostra essa preocupação do setor: “harmonia com a natureza”.
O tema permeou o congresso – apresentações científicas de novidades e inovações – e a feira. Na área de exposição, empresas confirmam que esse mercado pode crescer na região latino-americana e apresentam muitas soluções. Esse nicho, bastante valorizada na Europa, deve aumentar nas Américas.
O Colamiqc da Guatemala superou expectativas, segundo Melvin Barrios, presidente executivo do congresso. “Esperávamos 600 pessoas e já contamos com 800”, disse à reportagem da H&C ainda no início do último dia de evento. Neste Colamiqc, segundo ele, foi a primeira vez que o congresso precisou de duas salas para a realização simultânea das apresentações. “Isso ocorreu devido à demanda de participantes”, explica.
Soluções – A Dow Corning é umas das empresas que apresentou novos ativos de origem vegetal, como emulsões concentradas de silicones e óleos vegetais, como os de karité, kokum (originário da Ásia) e manga, para aplicação em itens capilares, de cuidados com a pele e maquiagens; e cera de soja, que pode substituir a vaselina sólida. “Nossa missão é trazer soluções completas aos clientes”, afirma María Luisa Fulgueira, gerente comercial da empresa para a América Latina na área Life Sciences. “Oferecemos serviços personalizados para atender as necessidades específicas de nossos clientes”, conta a enge-nheira Tânia Sá Dias.
Na América Latina, a área de cosméticos na Dow Corning cresce acima da média de mercado, com incremento de 20% em faturamento (2006 x 2005). Para este ano, a previsão é crescer 12% e, em 2008, 15%. Segundo María Luisa, o Brasil é o headquarter da empresa na região e deve ter um crescimento um pouco maior.
“Estamos investindo todos os anos para aprimorar nossas instalações e nossa equipe no Brasil, que atende a 28 países, do desenvolvimento aos serviços técnicos”, diz a executiva (leia mais sobre a empresa no quadro). Segundo ela, além do Brasil, os mercados que mais se destacam na região são: México, Argentina e Colômbia. Ainda assim, a empresa acredita no potencial de outros países. “Temos participado do Colamiqc desde 1995, pois queremos mostrar nossas soluções a todo o mercado latino-americano”, afirma.
A participação da Dow Corning nesta edição do Colamiqc deve trazer resultados ainda mais positivos. Segundo María Luisa, o evento contou com um número maior de participantes em comparação com a edição de dois anos atrás e similar com a realizada há quatro anos. “É muito importante reunir essa quantidade de profissionais de uma só vez”, diz. Na opinião de Claudio Fernando Moretti, que assumiu recentemente a posição de líder de marketing na Dow Corning para a América Latina, essa é uma oportunidade essencial para desenvolver novos mercados e negócios.
Força amazônica – A Croda também esteve presente no XVIII Colamiqc e destacou ingredientes amazônicos, como os de café verde, oferecidos pela Crodamazon. Segundo a fornecedora, o uso de itens com esse ativo contribui para reduzir a irritação na pele (10 vezes mais) e traz resultados logo após o primeiro dia de aplicação. A Crodamazon foi criada com a missão de estudar, pesquisar, desenvolver e aproveitar produtos e subprodutos de origem vegetal, sob uma política de preservação dos recursos naturais e da promoção do desenvolvimento sócio-econômico das regiões e comunidades envolvidas.
A Crodamazon e a Croda do Brasil têm suas cadeias de custódias certificadas pelo FSC (Forest Stewardship Council) e pelo SAN (Suatainable Agriculture Network), bem como a certificação orgânica pelo IBD (Instituto Biodinâmico). Suas linhas de produtos e derivados incluem, por exemplo: óleos vegetais e hidrodispersíveis, e esfoliantes naturais.
Segundo Sérgio Gonçalves, gerente de marketing da Croda para a América Latina, o objetivo da empresa no Colamiqc foi disponibilizar ao mercado latino-americano as mais recentes novidades em matérias-primas. “Dentro do ‘pense global e aja local’, apresentamos produtos que foram lançados na Europa e nos Estados Unidos alguns meses atrás, encurtando assim a distância entre os mercados e suas novidades”, diz. Para ele, o evento também proporcionou novos contatos, que poderão resultar em novos negócios e parcerias.
Um dos pontos importantes para a Croda foi a divulgação da aquisição da Uniqema neste ano, segundo Laura Mills, diretora de vendas para América Latina, com foco no mercado andino, Caribe e América Central. A Uniqema fornece base oleoquímica e produtos especializados que são utilizados como aditivos no setor de cuidados pessoais. “A aquisição vem ao encontro de um antigo objetivo de expandir nossos negócios no mundo para fortalecer a imagem da Croda neste segmento”, diz Sérgio Gonçalves.
Na opinião de Laura, a realização do evento na Guatemala pode trazer ótimos resultados de negócios. “Recebemos muitos clientes regionais”, diz. Segundo ela, há pelo menos cinco empresas de vendas diretas no país que buscam por tecno-logias para seus itens de higiene e beleza. “A Croda do Brasil está nos auxiliando com novas tecnologias, nosso desafio principal é adaptá-las aos clientes de outras regiões”, acrescenta. De acordo com a diretora, os mercados que oferecem oportunidades mais atraentes para o crescimento são Guatemala, República Dominicana, Argentina e Colômbia.

Mais benefícios – Além do atrativo vegetal, as empresas também apresentaram novidades que trazem mais resultados ao consumidor. Maia Navarrete, gerente de marketing da Croda para tecno-logia em polímeros, que atua nos Estados Unidos, mostrou os benefícios de novos ingredientes que podem ser utilizados em produtos para a pele, principalmente. “São quatro po-límeros que propiciam sensações diferenciadas na aplicação na pele, como maciez e suavidade, brilho, alisamento e hidratação”, diz.
Para protetores solares, a empresa apresentou um ingrediente protetor contra o calor que deixa o produto transparente, ideal para quem não quer ficar com a pele branca no momento do uso. “Na Europa, as mulheres têm a pele branca e não desejam usar um produto que as deixem mais brancas”, comenta Joanne Morris, profissional da Croda que atua na região européia para vendas e exportações. A idéia pode ser boa para homens também, que costumam não gostar de produtos que ficam na pele, aparecendo, mesmo na hora da aplicação. Segundo ela, entretanto, para produtos infantis o desejo é o contrário. “Os pais querem ver onde aplicaram o produto e se ele ainda está na pele dos seus filhos, por isso os itens coloridos fazem mais sucesso”, afirma.
Ao oferecer benefícios agregados, os fabricantes de cosméticos precisam se preocupar em não elevar demasiadamente o custo do produto final. Por isso, combinar propriedades em um só ativo pode ser uma vantagem competitiva. Nessa linha, a Nalco apresentou um polímero absorvente de raios solares para os cabelos e outro com mais força de condicionamento, que pode ser usado em conjunto com outras commodities. “Essa sinergia traz menos custo e melhor resultado”, comenta Kelly Gilroy, gerente da empresa responsável por distribuidores da região latino-americana. De acordo com Maria Helena Azevedo, gerente de negócios responsável pelo Cone Sul, essa matéria-prima contribui para o não acúmulo de resíduos nos fios de cabelo. “Evita o efeito build-up”, diz.
| Especialização e diversidade |
A Dow Corning foi fundada em 1943 em Midland, Michigan, nos Estados Unidos, formada a partir de uma joint-venture entre a Dow Química e a Corning Inc. O objetivo foi desenvolver a tecnologia de silicones*. A companhia conta hoje com um portfólio de mais de 10 mil produtos (cerca de 300 na área cosmética, 50 deles fabricados no Brasil), possui uma carteira de mais de 50 mil clientes em todo mundo e nove mil funcionários.
Quarenta por cento do fluido de silicone vendido no mundo é Dow Corning, conforme divulga a empresa. Em 2006, ela alcançou um faturamento de US$ 4 bilhões. Sessenta por cento de suas vendas são realizadas fora dos Estados Unidos. Na América Latina, a fornecedora possui fábrica no Brasil, onde a estrutura de produção e negócios recebe investimentos ano-a-ano para atender toda a região e crescer. Hoje, o País já é considerado um headquarter para a corporação, como acontece nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.
A Dow Corning atua em diversos segmentos, como: aviação e aeroespacial, químicos, automotivo, têxtil, couro, não-tecidos, papéis e adesivos sensíveis a pressão, construção, revestimentos, elétrico e eletrônico, plásticos e borrachas. A área Life Sciences atende aos segmentos de cuidados pessoais (cabelos, pele e proteção solar), cuidados com o lar (tecidos e superfícies), cuidados com saúde (antiflatulentos, tubos de silicone para as áreas médica e farmacêutica, e adesivos), alimentos e bebidas e cuidado animal (produtos de higiene e beleza para cães e gatos e produtos para bovinos e eqüinos).
* Os silicones são químicos inorgânicos não derivados de petróleo. |
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Biodegradáveis – Dentre os itens do portfólio de sua linha Farmal, a Corn Products ressaltou seus ingredi-entes derivados de amidos do milho principalmente, itens biodegradáveis, naturais e alguns certificados como orgânicos, segundo Oscar Gutierrez Sanchez, diretor de desenvolvimento de negócios e serviços técnicos da empresa no México, que atende à região centro-americana e Caribe. O fato de ser natural, segundo ele, não quer dizer que um ingrediente possa ser mais caro. “Esse é um mito que temos de desmistificar”, conta.
A empresa também fortaleceu a divulgação de sua parceria com a japonesa Hayashibara, especializada em biotecnologia, e com a brasileira Beraca, fornecedora de ativos amazônicos. O setor cosmético representa cerca de 10% dos negócios para a Corn Products no México, incluindo toda sua atuação na AL. “Nossa expectativa, principalmente com a participação no Colamiqc, é expandir esse número”, diz o executivo.
Próximos passos – O Colamiqc mostrou que as empresas cosméticas, em toda cadeia produtiva, estão conectadas às tendências e necessidades de consumo mundial, também na região latino-americana. Seja moda, como alguns profissionais e cientistas do setor acreditam, ou novidades realmente mais eficazes, os ativos de origem vegetal ou natural seguem ganhando força. E a realidade é que eles já são focos de negócios. Resta às empresas mostrarem seus benefícios e aproveitarem. O próximo Colamiqc será realizado em 2009, no Equador.
| IInternacionalização e crescimento |
O Colamiqc conta com um programa de palestras científicas, para a apresentação de novas tecnologias, e área para exposição de empresas fornecedoras do setor cosmético. Nesta edição, foram apresentadas 60 palestras científicas, além das apresentações individuais de algumas empresas em salas separadas e do programa científico de pôs-teres, com exposição de quase 30 trabalhos.
“Com o processo de internacionalização do mercado, temos uma edição com mais participantes, o que fortalece o setor, a troca de informações e de conhecimento”, afirma Jadir Nunes, presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC). “Agora o Brasil é o terceiro colocado também em ciência cosmética, nossa intenção é colocá-lo no topo do ranking”, conta. Segundo ele, a participação do Brasil foi forte, com uma delegação de aproximadamente 60 pessoas. “Os destaques das apresentações foram o natural e a eficácia”, finaliza.
Para Denise Varella Miranda, estudante de farmácia na USP que foi convidada pela ABC para participar do congresso, foi uma oportunidade especial para “direcionar seu desenvolvimento e fazer novos contatos”. Ela venceu um concurso de apresentação oral no congresso da ABC em 2006 e recebeu esse prêmio da associação. O trabalho de Denise foi sobre o efeito anti-oxidante da parapiroba. Eis o natural, da universidade ao mercado, e vice-versa. Acompanhe a opinião de outros participantes profissionais do setor nas próximas notas de mercado. |
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