| Um limpador multiuso custa entre R$ 3 e R$ 3,50, aqui é R$ 1,50”, diz o atendente de uma loja que comercializa produtos de limpeza sem marcas, a granel. Esse é um cenário comum em todo País. Num primeiro momento, podemos pensar que isso acontece apenas em regiões mais pobres, em bairros onde o poder aquisitivo do consumidor geralmente é mais baixo. Porém, para produzir essa reportagem, encontramos alguns contrastes. Num bairro nobre, próximo à Av. Paulista, uma das principais da cidade de São Paulo, constatamos a venda de clandestinos sob variadas formas. Seja na loja, na vendinha, no caminhão, na perua ou mesmo pelo porta-a-porta, esse tipo de produto chega à casa de consumidores diversos, de todos os brasis.
No primeiro ponto-de-venda que visitamos, além de comparar o preço do líder com seu produto sem marca, o atendente – um dos proprietários da loja – orientou outro cliente sobre seu item de combate de pragas. “Inseticidas líderes e similares matam apenas na hora, se você for bom de gatilho acaba com os bichos, mas o nosso produto age por mais tempo e é mais barato”, disse. Quem não tem orçamento para fazer propaganda, ainda encontra maneiras de fazer o marketing dos seus produtos.
“Vendemos para donas-de-casa, empregadas domésticas, condomínios, bares e restaurantes da região”, conta o proprietário. Nesse estabelecimento, os produtos próprios representam mais de 70% das vendas, o restante fica com os poucos itens de marca disponíveis nas prateleiras.
Portfólio diverso – O que mais nos impressionou nesse local foram as 20 torneiras de onde saem os produtos, preparados nos fundos da loja e armazenados em barris. Da torneira, o produto é envazado em embalagens reutilizadas de refrigerante, água e até mesmo de produtos de limpeza. A maioria vai para garrafas PET, sem rótulo, o que contraria exigência legal prevista pela Anvisa e o Código de Defesa do Consumidor, que prevê a necessidade de informações sobre os direitos do consumidor nas embalagens.
É nos rótulos que os fabricantes são obrigados a informar a composição do produto, riscos à saúde e dados sobre a empresa responsável pela fabricação, com telefones e endereços para contato. De acordo com a Anvisa, a fiscalização sobre o setor cabe principalmente à Polícia Civil.
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Clandestinos também são vendidos nas ruas por ambulantes |
Mercados distintos? – Em outra loja, uma placa indica uma promoção para atrair o consumidor: “Acima de 5 litros do mesmo produto, desconto de R$ 0,10 por litro”. Além dos produtos convencionais – água sanitária, desinfetante, multiuso, detergente, amaciante e limpa-vidros – estão disponíveis ao consumidor itens “especiais”, exclusivos segundo o proprietário, como: limpa-alumínio, álcool perfumado e um produto específico para limpeza de pedras. Um dos produtos, um líquido amarelo escuro, possui uma fragrância denominada “Palmolive”, marca de propriedade da Colgate-Palmolive.
“Estamos nesse ramo há cerca de 20 anos”, conta o proprietário. Para ele, que diz pagar todos os impostos e ter conhecimento técnico para preparar os produtos, não vale a pena investir no desenvolvimento da empresa, para criar uma marca, fabricar embalagens e obter registros junto ao governo. “São dois mercados distintos, um é o de produtos de marca que são vendidos nos supermercados, o outro é esse segmento no qual atuamos, de produtos mais baratos, oferecidos por litro”, acrescenta o comerciante.
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Fabricação, normalmente,
é feita nos fundos das lojas |
Barreiras – De acordo com a Anvisa, as principais dificuldades das empresas clandestinas para ingressar no setor formal são: abertura da empresa com registros legais, qualidade dos produtos (geralmente, os clandestinos não possuem a quantidade recomendada de ativos e possuem substâncias não permitidas ou até desconhecidas), embalagens apropriadas (com identificação das substâncias que compõem a formulação) e condições de fabricação (equipamentos e procedimentos corretos).
“Não queremos eliminar esses comerciantes ou fabricantes, mas sim trazê-los para o setor formal”, afirma Tânia Pich, gerente geral de saneantes da Anvisa. Há três anos, a Anvisa criou um grupo de trabalho específico para esse assunto. A equipe é composta por membros da agência, representantes do setor e funcionários de vigilâncias sanitárias estaduais. Entre os objetivos da agência, está a reversão dessa situação. Segundo a gerente, combater a clandestinidade, trazendo os informais para a legalidade, pode contribuir para o crescimento e fortalecimento do setor de limpeza doméstica no Brasil.
Aproximação – De acordo com Tânia Pich, a agência tem se aproximado de empresas e profissionais que pretendem sair da condição de clandestinos para ingressar no setor formal. “Realizamos trabalhos em São Paulo e, recentemente, conversamos com empresas das Regiões Nordeste e Norte, pelo fato de as vigilâncias sanitárias locais receberem solicitações das próprias fabricantes”, diz.
Segundo a gerente, a Anvisa também tem planos para criar grupos de monitoração de fabricantes, com a finalidade de proporcionar o desenvolvimento do setor. A participação da Anvisa nos cursos de limpeza promovidos pela revista H&C, por exemplo, contribui para mostrar aos fabricantes que ingressar na legalidade não é um bicho de sete cabeças.
Consumidor – Além de promover a conscientização entre as empresas clandestinas, desde 2003, a Anvisa alerta o consumidor, por meio da cartilha “Orientações para os Consumidores de Saneantes”. Cerca de um milhão de exemplares foram distribuídos em São Paulo e 300 mil no Rio de Janeiro. Esse material traz informações sobre saneantes e como eles devem ser utilizados, e explica o que é vigilância sanitária, como os produtos são controlados e como identificar os clandestinos.
Para serem vendidos em supermercados, lojinhas, mercearias e outros locais de comércio, os saneantes precisam ser seguros e eficazes, atendendo às exigências da Anvisa. Por isso, a cartilha reforça que todos os fabricantes são obrigados a seguir normas legais e técnicas e obter autorização do Ministério da Saúde para fabricar e comercializar cada um de seus produtos.
Baixa competitividade – Se um lugar vende bastante, mesmo em bairros “mais ricos”, há outros onde a venda de produtos sem marca não é tão expressiva. Em outro ponto-de-venda visitado pela equipe da H&C, os produtos sem marca vêm numa embalagem padrão, verde escura, não transparente, porém sem rótulo com especificação dos componentes da fórmula.
Na etiqueta, apenas o nome do produto (água sanitária, amaciante, sabão de coco, etc). O aviso para manter os produtos longe de crianças e de animais fica apenas na prateleira, no fundo da loja. “Aqui, esse tipo de saneante representa cerca de 5% do nosso faturamento”, revela o proprietário.
“Compramos os produtos de uma pequena fornecera química, que possui CNPJ e químico responsável. Essa empresa nos entrega os produtos nessas embalagens (de 2 litros ou 20 litros)”, diz. Para o comerciante, esse tipo de produto de limpeza, sem marca, está em fase de decadência.
“No passado tinha muito mais e o povo comprava, hoje não vale a pena, mesmo que o preço seja 10% ou 15% mais baixo. As pessoas confiam nos produtos de marca, que aqui são os campeões de vendas”. Segundo o comerciante, “os fabricantes das grandes marcas podem diminuir custos ou margens de lucro e, com promoções, chegar a preços mais competitivos para abater os clandestinos”.
Pesquisas da ACNielsen mostram que em fases de crescimento do poder aquisitivo, as marcas líderes voltam a conquistar participação no mercado. Em épocas de queda, esse consumo diminui. Cabe às empresas do setor formal aproveitar a preferência do consumidor para consolidar suas marcas. Esta parece ser uma boa maneira de combater o clandestino.
Risco à saúde
Fabricar produtos de limpeza em casa ou nos fundos da loja não é uma tarefa árdua. Além da facilidade para obter matérias-primas, segundo as próprias pessoas que “fabricam saneantes”, os interessados em iniciar essa atividade encontram apostilas e vídeos explicativos na internet e contam com explicações detalhadas em certos programas de televisão. Porém, empresas do setor formal e a vigilância sanitária promovem ações em prol da melhoria desse cenário, para que as empresas clandestinas se desenvolvam e ofereçam produtos seguros à população.
A própria Anvisa alerta que é perigoso comprar sabão, detergente e água sanitária sem registro. Esses saneantes podem causar alergias, intoxicações, queimaduras, problemas respiratórios, irritações, machucados e até a morte de pessoas e animais.
“Quando o consumidor adquire um produto clandestino, ele não tem garantia de sua eficácia e corre o risco de prejudicar sua saúde”, afirma Tânia Pich, gerente geral de saneantes da Anvisa. “As formulações desses produtos muitas vezes estão aquém das especificações recomendadas e as embalagens reutilizadas não estão devidamente limpas e descontaminadas”, conclui. |
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Cofres mais cheios
O ingresso de empresas clandestinas no mercado formal, além de aumentar a competitividade no setor, pode aumentar o faturamento em milhões de reais
A comercialização de produtos de limpeza clandestinos corresponde a uma perda de aproximadamente R$ 558 milhões no faturamento do setor de household no Brasil, segundo levantamento da Abipla. Essa informação se baseia numa pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), em 2001. Por meio desse estudo, o instituto analisou a venda nas ruas dos seguintes itens: água sanitária, detergentes, multiusos, amaciantes e desinfetantes. Apesar de desatualizados, esses dados mostram o panorama do mercado clandestino no País. Segundo a Abipla, esses dados serão revisados.
De acordo com a Abipla, a atividade dos fabricantes clandestinos, além de não fazer parte dos resultados positivos do setor de limpeza, onera a área pública, já que “empresas clandestinas” deixam de pagar seus impostos (veja tabela). O valor de perda em impostos pode chegar a R$ 219 milhões, levando em consideração apenas a venda de águas sanitárias, desinfetantes, amaciantes de roupas e detergentes líquidos.
“Temos buscado uma aproximação maior com o Sebrae para que nas aulas sobre indústria de produtos de limpeza seja incluído um módulo sobre regularização de empresas e produtos”, diz Maria Eugênia Saldanha, diretora-executiva da Abipla. A associação possui também um fórum de denúncias. “Quando recebemos uma informação (documentada) sobre clandestinidade, entramos em contato com a fabricante para informá-la das irregularidades e orientá-la sobre o processo de regularização”, afirma. A partir daí, é determinado um prazo para que a empresa se regularize.
“Se observarmos que não há intenção de regularização, passamos a denúncia aos órgãos competentes”, diz a executiva. A Abipla, de acordo com ela, também participa ativamente do Fórum Nacional de Combate a Pirataria e Ilegalidade e possui o Grupo de Informalidade, que discute as possíveis ações e planos para combate do mercado informal.
Na opinião da diretora da Abipla, o que interessa é que os produtos oferecidos ao consumidor sejam seguros e eficazes e que as normas vigentes sejam respeitadas. “Uma vez legalizado esse mercado, a concorrência torna-se justa e saudável”, analisa.
Fornecedores – A Abipla afirma que orienta fornecedores de matérias-primas e distribuidores sobre a importância da formalidade, por meio dos cursos realizados em parceria com o Conselho Regional de Química. Os temas abordados são: registro de produtos, boas práticas de fabricação e autorização de funcionamento, entre outros.
Muitas fornecedoras de matérias-primas oferecem orientações de como fabricar ou elaborar produtos de limpeza aos seus clientes. Algumas delas disponibilizam essas informações no próprio site da empresa. Esse comportamento, ao mesmo tempo em que proporciona oportunidades para pequenos empresários ou pessoas que queiram aperfeiçoar seus produtos, pode facilitar a atividade clandestina, já que dá a receita do bolo.
De acordo com o gerente de vendas de uma empresa química de São Paulo, muitos empreendedores que atuam nesse segmento de produtos sem marca não têm condições de pagar o piso mensal para um químico assinar seus produtos (cerca de R$ 700, segundo o profissional) ou até mesmo a anuidade para o conselho regional de química (também em torno de R$ 700).
“Procuramos orientar nossos clientes sobre a maneira correta de utilizar nossos produtos, muitas vezes fornecemos sugestões de formulações por escrito”, afirma. A empresa vende tanto matérias-primas como produtos prontos, concentrados. Se o cliente optar por esta última alternativa, basta que ele adicione água para obter seu saneante e assim poder vendê-lo ao consumidor final.
“O cliente pode pedir 200 litros de desinfetante, daí vendemos 10 litros concentrados, então ele só precisa adicionar água”. Nesta empresa, segundo o gerente, a venda de matérias-primas ou concentrados para clientes informais pode representar até 30% do faturamento, no que diz respeito ao setor de household. Uma representatividade alta para ser jogada fora. E agora?
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Perdas em impostos originárias na informalidade |
Produto |
Consumo
estimado
(mil R$)(1) |
%Informalidade (2) |
Carga tributária (%)(3) |
Valor de perdas
em impostos
(mil R$) |
Água Sanitária |
559.286 |
42,1 |
37,84 |
89.097 |
Desinfetante |
541.410 |
30,6 |
37,84 |
62.690 |
Amaciante |
726.716 |
15,2 |
43,16 |
47.675 |
Detergente Líquido |
603.107 |
7,7 |
42,27 (*) |
19.630 |
Total |
- |
- |
- |
219.092 |
Fontes: |
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(3) Estudo IBPT – Diário do Comércio, 19 de julho de 2004
(*) Estimativa por similaridade tributária com outros produtos estudados |
(1) Estimativa própria Abipla |
(2) Estudo FIPE – 2001 |
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Ranking dos clandestinos
O produto de limpeza clandestino mais vendido é a água sanitária. A Abipla divulga que essa categoria, no setor formal, é responsável por vendas de R$ 560 milhões. O estudo da Fipe (de 2001) revela que pelo menos 42,1% do volume desse tipo de produto vendido é clandestino. Ou seja, esse faturamento, com o ingresso dos clandestinos na legalidade, poderia superar a marca de R$ 700 milhões.
O segundo colocado no ranking dos clandestinos são os desinfetantes, que movimentam anualmente R$ 540 milhões no mercado formal. Mais de 30% dos produtos comercializados são clandestinos. Amaciantes e detergentes líquidos ocupam a terceira e quarta posições, com 15,2% e 7,7% de participação de itens ilegais.
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Perda de faturamento para o setor industrial |
Produto |
Consumo
estimado
(mil R$)(1) |
%Informalidade (2) |
Valor de perdas
em impostos
(mil R$) |
Água Sanitária |
559.286 |
42,1 |
235.459 |
Desinfetante |
541.410 |
30,6 |
165.702 |
Amaciante |
726.716 |
15,2 |
110.460 |
Detergente Líquido |
603.107 |
7,7 |
46.439 |
Total |
- |
- |
558.060 |
Fontes: |
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Ps. não há geração de empregos formais; não há disposição para investimentos |
(1) Estimativa própria Abipla |
(2) Estudio FIPE – 2001 |
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