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Especial Cosméticos
De acordo com a tradição judaica, o olfato é o sentido que “a alma desfruta, e não o corpo”, o que faz dele o mais espiritual dos sentidos, como se comprova pela cognação das palavras em hebraico: rei’ach para olfato e ruach para espírito. Dos nossos cinco sentidos, é o olfato o que mais tem conexão com o processamento de emoções e o armazenamento de memórias. Um cheiro tem a capacidade de despertar qualquer tipo de sensação ou recordação.
Reflexão – Nesse segmento, novidade é palavra de ordem. Muito ligado à moda – diversas grifes famosas, inclusive, se aventuram por esse terreno, como Dior, Kenzo e Chanel –, a perfumaria fina procura ditar tendências, antecipar o desejo dos consumidores e, acima de tudo, apresentar inovações. Os lançamentos não param.
Segundo profissionais do setor, há mais de dez anos o mercado passa por uma profusão de novas marcas e versões, apoiadas por grandes investimentos em comunicação, o que resulta na diminuição do ciclo de vida de cada produto. Com isso, a indústria passa, hoje, por um momento de reflexão.
Especialistas concordam que o grande desafio da perfumaria nos próximos anos será entender a busca pela identidade olfativa, resgatando a idéia de assinaturas que distingam uma marca de outra, e inovar em tecnologias que proporcionem cada vez mais performance às fragrâncias.
Para a diretora de marketing e desenvolvimento de perfumes finos para a América Latina da Firmenich, Alessandra Tucci, a direção está mesmo mudando. “Há um resgate ao perfume, e não somente uma preocupação com conceito”, conta. “O foco para os próximos anos é na história do produto, na emoção que ele desperta ou na tecnologia”, completa.
Outro indício desse momento de reflexão citado por Tucci são as recentes aquisições que aconteceram no mercado, como a D&G agora com a Procter & Gamble e a Calvin Klein com a Coty. “Temos que observar um pouco e ver para onde essas grandes marcas irão caminhar”, afirma. “Até mesmo a parceria de Tom Ford com Estée Lauder causa uma enorme curiosidade no mercado”.
Inovações – Para a especialista em perfumaria Renata Ashcar, autora do livro “Brasilessência – A Cultura do Perfume” e curadora do Museu do Perfume, do Boticário, é difícil para o setor inovar no desenvolvimento de um novo produto em termos de estrutura. “A pirâmide olfativa e seus diferentes acordes é a base de uma criação perfumística”, diz Ashcar. “Não acredito em inovações nesta área, pois são estes acordes que determinam a harmonia de uma fragrância”, acrescenta.
No entanto, a especialista não vê limites para a inovação em termos de combinações. Ela cita como case o Angel, lançado nos anos 90 por Thierry Mugler. A fragrância gerou uma nova direção olfativa na perfumaria ao utilizar um forte toque de baunilha pela primeira vez, inaugurando o conceito gourmand no setor. “Isso pode se repetir no futuro”, afirma.
O gerente de planejamento de marketing do Boticário, Telmo de Campos, concorda com a especialista. “Esse é um segmento muito difícil de inovarmos conceitualmente, mas temos exemplos bem claros de sucesso e inovação”, diz.
Versões – A Renata Ashcar aponta ainda como foco de inovações as embalagens e novas versões para marcas já reconhecidas. “Hoje, já vemos perfumes feitos somente para o verão, por exemplo, que, no meu ponto de vista, não deixam de ser uma forma de reforçar o conceito das marcas já existentes dando mais opções aos consumidores fiéis”.
Esse conceito já é percebido entre no mercado brasileiro. “Temos trabalhado nesse sentido, como o lançamento do Stylleto Intense, uma nova versão do colônia, que este ano completa 20 anos”, conta Telmo de Campos. A empresa já colocou no mercado neste ano perfumes em edição limitada comemorativos ao Dia Internacional da Mulher (Linda Brasil) e ao Dia dos Pais (Azul Portinari).
Exemplo disso também são as novidades da Contém 1g, que pela primeira vez utiliza frascos diferenciados e nomes para as nossas fragrâncias. “A nova linha possui maior concentração de essência, que tem como característica principal maior fixação na pele”, afirma Ângela Mercadante, diretora de produtos da empresa.
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Tendências – Recentemente, as notas florais e a retomada de características da moda da primeira metade do século passado influenciaram as novidades da perfumaria fina em todo mundo. As tendências vêm dos Estados Unidos e da Europa e os especialistas concordam que isso dificilmente se modificará em curto prazo.
O mercado europeu, em termos gerais, é inovador e aberto a novas experiências, resultando num equilíbrio maior entre as diferentes famílias olfativas. “A Europa continua mais opulenta e sensual, como vemos no novo Black XS, de Paco Rabbane”, afirma Alessandra Tucci da Firmenich.
Já os Estados Unidos estão vivendo o “boom” das celebridades, onde se destacam as fragrâncias de personalidades que figuram entre as mais vendidas do país. “Essa onda deve continuar, pois é um investimento de retorno mais garantido e rápido, características fundamentais para os americanos”, diz Tucci.
Quando falamos de fragrâncias, o mercado norte-americano é visto pelos executivos do setor como aquele que demonstra características olfativas mais tradicionais, pela grande participação da família floral em suas fragrâncias femininas e fougère para as masculinas. “Desta forma, sua evolução olfativa tende a vir deste dois caminhos, destacando-se nos florais a flor de laranjeira e no fougère a incorporação de madeiras para um fundo mais intenso”, explica Camila Mayer, gerente da categoria Fine Fragrances da Givaudan.
“É difícil prever o futuro, mas o que estará certamente presente serão as combinações inusitadas e inovadoras, como flores com madeiras e saídas frescas com fundos gourmand, ou seja, novas formas de experimentação”, afirma Meyer.
Destaque – O tradicional ecletismo brasileiro não foge à regra quando se trata de perfumaria. Ao mesmo tempo em que estamos mais próximos do estilo americano, o glamour europeu ainda é inspirador. A Contém 1g demonstra essa pluralidade. “Estamos antenados com os dois pólos: EUA e Europa”, diz Angela Mercadante, da Contém 1g.
Para ela, os perfumistas são desafiados a criar fragrâncias que lançarão as novas tendências olfativas e são instigados a olhar para fora do setor e se inspirar na moda, na beleza, na decoração e até no mundo dos chefs de cozinha. “O importante é dosar criatividade, inovação e viabilidade comercial”, receita. “Procuramos lançar fragrâncias dentro das tendências olfativas que se destacam nesta multidão de lançamentos”, explica.
Em meio a tantas tendências, o Brasil busca sua identidade. Seja pelo caminho da exploração de ingredientes naturais da nossa flora, como faz a Natura com a linha Ekos, ou pela aposta na tecnologia e na inovação olfativa, como quer o Boticário.
Esse rumo do Boticário pode ser comprovado no mais recente lançamento da empresa, o Rhea. A fragrância traz em sua formulação dois componentes inovadores em perfumaria: o álcool vínico (usado primeiramente pela empresa na fragrância Malbec) e a água de rosas, ingrediente muito usado na indústria cosmética em cremes, loções e sabonetes.
Personalidade – Apesar da forte influência que o mercado internacional ainda exerce sobre o Brasil, as empresas nacionais vêm aos poucos tentando construir uma identidade própria em suas criações locais. “Atualmente, encontramos aqui uma forte tendência dos orientais legère. No Brasil, há sempre uma preocupação com uma certa leveza nas notas de saída”, afirma Alessandra Tucci, da Firmenich. Em perfumes masculinos, ela aponta para uma melhor convivência entre as fragrâncias. “Os tradicionais aromáticos estão em harmonia com as madeiras e os orientais”, explica. “Os elementos que realmente trazem um diferencial são as especiarias, que trazem um toque de frescor mais elaborado e sofisticado.
Para Camila Meyer, da Givaudan, o mercado brasileiro está numa fase de transição, de fragrâncias muito frescas para mais complexas. “Se o passado foi marcado pela lavanda e muitos cítricos, hoje o bouquet floral está conquistando o Brasil por meio de composições mais frescas com notas frutais e verdes”, afirma.
O consumidor brasileiro também começa a aceitar combinações antes não vistas com bons olhos, como floral amadeirado, chipre, notas ozônicas, que hoje são encontradas nos portfólios das maiores marcas, mostrando uma abertura maior no gosto geral. “O que vemos é que a família floral manterá sua hegemonia, seja por novas composições (floral frutado, por exemplo), seja pela volta dos bouquets florais e notas de flores antigas que reaparecem como mimosa e a flor de Laranjeira”, observa Meyer.
Brasilidade – A O toque brasileiro também pode vir de outras fontes, a partir do uso de suas riquezas naturais no desenvolvimento de novas fragrâncias. Segundo dados da Conservation International, 23% das espécies do planeta estão no Brasil, sendo que destas apenas 5% já foram pesquisadas e 1% são efetivamente usadas na indústria.
O potencial brasileiro, portanto, é enorme, mas o resultado só deverá ser visto a longo prazo. “Acredito que ainda vai demorar muito para o Brasil ditar tendências, justamente por esta falta de investimento das empresas que ainda têm medo de ousar e criar uma personalidade olfativa própria”, diz Renata Ashcar.
Uma das características do setor de perfumaria é seu ritmo acelerado, e a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil destoa dessa tradição. “Para se destacar, é necessário que o País explore suas riquezas de forma sustentável, com técnicas de manejo florestal e responsabilidade social”, conclui.
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