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Em “Quase Memória”, do escritor Carlos
Heitor Cony, um homem lembra de imagens e fatos do passado quando
recebe um presente misterioso. Pelas características do
pacote – como a técnica de fazer o embrulho, a perfeição
do nó no barbante, o formato da letra, a tinta roxa e
cheiros, como o de alfazema, brilhantina e manga –, só poderia
ter sido enviado por uma pessoa, que, entretanto, morrera dez
anos antes. Essa é a trama do livro que traz à tona
a riqueza da memória e sua importância na vida das
pessoas. Além disso, mostra como um perfume pode propiciar
sensações e lembranças.
No mundo cosmético, essas sensações são
geradas pelas propriedades de óleos essenciais e essências,
aplicados em itens de cuidados pessoais e até de beleza.
Explorar as características positivas desses ingredientes é o
que se denomina aromaterapia. No setor cosmético, os produtos
com esse conceito têm sido uma opção para quem
deseja incrementar seus negócios e oferecer itens com valor
agregado ao consumidor.
Nos Estados Unidos, a aromaterapia já é uma forte
tendência. Anualmente, os produtos que trazem os benefícios
dos óleos essenciais somam faturamento de aproximadamente
US$ 8 bilhões, segundo dados da California Certified Organic
Farmers (entidade de fornecedores de matérias-primas para
fabricação de óleos, da Califórnia/
EUA).
Apelo
global – Entre as empresas nacionais e estrangeiras
que apostam em aromaterapia, algumas acreditam que apenas a fragrância
seja suficiente para promover o sentimento de bem-estar. Na opinião
de Christian Ferreira, gerente de produto da Lush, para que um
produto tenha características aromaterápicas, é necessário
que “os produtos têm que ter óleos essenciais
puros em suas fórmulas e não somente essências”.
Os óleos essenciais são extraídos do ingrediente
in natura, contendo, portanto, suas propriedades não olfativas,
e as essências são substâncias, normalmente
sintéticas, que reproduzem apenas seu cheiro.
A Lush comercializa seus produtos no Brasil há aproximadamente
cinco anos. São cerca de 300 itens. Por aqui, a companhia
possui 14 lojas próprias – oito na cidade de São
Paulo, duas no interior do Estado, duas em Brasília, uma
no Rio de Janeiro de Janeiro e uma em Belo Horizonte. Ainda neste
semestre, a empresa, de origem inglesa, deve inaugurar mais uma
unidade na capital mineira. Os produtos são importados da
Inglaterra e alguns itens sólidos são manipulados
no Brasil. De acordo com Ferreira, todos os produtos comercializados
são aromaterápicos. “A Lush investe nesse mercado
desde os anos 70”, afirma.
O carro-forte da Lush, tanto no mercado internacional quanto no
País, é o sabonete, produzido com cerca de 2% de óleos
essenciais, de acordo com o gerente. “Esse percentual é considerado
uma concentração alta no mercado”, diz. Segundo
ele, é importante também investir em visual atrativo. “Os
produtos são grandes e bastante coloridos, o que contribui
para conquistar o consumidor”. As linhas de banho e as barras
de massagens também são responsáveis por grande
parte do faturamento da empresa.
Aromaterapia ou aromacologia?
Por
uma questão
de marketing, o conceito de usar aromas em cosméticos
para promover bem-estar ficou conhecido como aromaterapia.
Porém, segundo a Associação
Brasileira de Aromaterapia
(Abraroma) o termo correto que deveria ser adotado é aromacologia,
pois aromaterapia refere-se, exclusivamente, ao
tratamento que utiliza somente óleos essenciais,
sem nenhum outro ativo ou base química.
A Abraroma oferece cursos sobre aromaterapia que
formam especialistas para os segmentos clínico,
estético e ambiental (aromatização
de ambientes). |
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Diversidade
de ativos – A Lush utiliza matéria-primas
de diversas regiões do mundo em seus cosméticos e
perfumes, e o Brasil, na opinião de Ferreira, tem potencial
para oferecer recursos que podem incrementar o mercado de aromaterápicos. “Os
ativos que proporcionam melhores resultados nas vendas são
os afrodisíacos”, diz.
Dentro deste nicho, entre os principais ingredientes estão
o jasmim, considerado o mais forte para os negócios, e o
ylang-ylang. Em seguida vêm os calmantes, como o mel, e energizantes,
como a menta. Atualmente, a inglesa Lush está desenvolvendo
produtos aromaterápicos a partir de formulações
produzidas com substâncias brasileiras, como limão,
laranja e kiwi.
Brasilidade – Da biodiversidade brasileira, as empresas
cosméticas têm extraído substâncias (veja
matéria na página 34) que, além de exuberância
e exotismo, figuram entre as matérias-primas mais cotadas
para uso em produtos aromaterápicos. A Antídoto Cosméticos,
por exemplo, tem 18 linhas de produtos com o conceito de aromaterapia.
A maioria dos produtos da empresa contém formulações
baseadas em fragrâncias frutais, como pitanga, maracujá e
açaí, frutas características do Brasil.
Segundo Marcelo Sarpe, gerente geral da empresa, a pitanga, também
considerada afrodisíaca, é o ingrediente mais importante
do portfólio. “Nossas pesquisas são fundamentadas
em estudos de cosmecêutica, procuramos formular nossos produtos
com extratos dos ativos, não apenas a essência”,
afirma.
Exportação à vista – A Antídoto
não comercializa em grande escala seus produtos para o mercado
internacional, mas as portas estão se abrindo. “Temos
contatos em Portugal e Itália, por exemplo, dos quais poderão
nascer alguns negócios”, diz Sarpe. “Tem gente
de fora se interessando por nossos produtos”.
A Antídoto, atua no mercado desde 1999, oferece mais de
500 itens, divididos em três linhas: banho, infantil e aromatoterapia.
São xampus, condicionadores, sabonetes líquidos e
glicerinados, milks e loções corporais, mousses hidratantes
e espumantes, deo colônias, águas refrescantes e estimulantes, óleos
corporais e balsâmicos, sais de banho, batons e até velas
aromáticas.
A Antídoto conta com 70 franquias no Brasil para distribuir
seus produtos, somando lojas e quiosques, e com consultoras domiciliares,
que realizam venda direta. Segundo Sarpe o grande diferencial para
quem vende cosméticos com valor agregado, principalmente
aromaterápicos, é possuir profissionais capacitados,
que mostram aos consumidores detalhes sobre os benefícios
de cada ativo e produto. “Temos vendedores treinados para
promover nossos itens, que, geralmente, são procurados por
um público de classe B ou A”, acrescenta.
Mais
opções – Enquanto
algumas empresas investem em diversos cosméticos com
características aromaterápicas,
há quem prefira trabalhar apenas com os óleos, e
oferecer flexibilidade de escolha ao consumidor. A Aromaterapia
Indústria e Comércio, sediada em Valinhos/SP, aposta
nesta fatia de mercado e comercializa cerca de dez óleos
essenciais que podem ser usados com as espumas de banho ou os óleos
de massagem fabricados pela empresa.
“Nossas espumas e óleos de massagem não têm
cheiro, assim o consumidor pode escolher o óleo essencial
e montar seu cosmético de maneira diferente a cada dia”,
afirma Paola Rodrigues, gerente de marketing da empresa. Além
desses usos, os óleos essenciais podem ser utilizados em aromatizadores
de ambientes.
Segundo
executivos do setor, a aromaterapia ainda pode ser tomada como
um conceito novo para cosméticos
no Brasil. E, recentemente, devido ao aproveitamento de ativos
naturais brasileiros, tem se tornado uma ferramenta importante
para as empresas no desenvolvimento de produtos inovadores. Mais
uma vez a criatividade tem convite vip para estrelar.
Ativos
clássicos que dominam
o mercado
YLANG-YLANG
O ingrediente, que possui propriedades calmantes, é extraído
de flores frescas desenvolvidas, cultivadas principalmente
nas regiões de Madagascar, Indonésia
e Filipinas. Há muitos anos, esse ativo já era
usado em ilhas da Ásia tropical para tratamento
de picadas de insetos e feridas na pele. Em aromaterapia,
ele é utilizado, entre outras funções,
para acalmar a tensão, diminuir o mau humor
e aumentar a sensualidade.
JASMIM
Ativo cultivado principalmente
na França, Egito, Marrocos, Índia e Itália.
Ele já era utilizado, décadas atrás,
em perfumes clássicos, devido a seu toque sensual.
Esse ingrediente contribui para minimizar sintomas
de depressão, irritabilidade
e também possui propriedades afrodisíacas. |
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