FCE Cosmetique
 
 , 8 de Fevereiro de 2012
   Revista - H&C - Household & Cosméticos
Ano VI - nº 30 - Mar/Abr - 2005 


Especial Cosméticos

Não são apenas futebol e carnaval que promovem o Brasil lá fora. A imagem do País – “bonito por natureza”, como canta Jorge Ben Jor – tem sido utilizada em diversos setores da indústria e de serviços para levar ao mundo produtos com características verde-amarelas. Desde commodities, histórica e economicamente fortes – como soja, café e laranja – a itens de moda, as mercadorias do Brasil, em geral, estão em alta no mercado externo. Exotismo, alegria, matérias-primas exclusivas e desenvolvimento sustentável de recursos naturais são fatores que incrementam o portfólio canarinho. Entre os casos de sucesso, como as sandálias Havaianas e o refrigerante de guaraná da Antártica, os cosméticos daqui conquistam cada vez mais espaço e interesse do consumidor internacional. É a brasilidade gingando mundo afora.
Uma das primeiras portas que foram abertas para a maior divulgação da brasilidade no mercado mundial foi a comercialização no Duty Free de alguns itens genuinamente brasileiros, como a linha Natura Ekos, da Natura, a cachaça 51 e as famosas Havaianas. Há cerca de dois anos, o Boticário, por exemplo, incluiu seus produtos nos free shoppings dos principais aeroportos do País. Segundo executivos do setor, essa é uma das iniciativas pioneiras que contribuíram para enriquecer a vitrine brasileira e chamar atenção do público externo.
De acordo com a Abihpec, as atividades do setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos voltadas ao mercado internacional devem continuar a crescer neste ano. Os dados divulgados na Cosmoprof Cosmética 2004, no semestre passado, mostram que até julho de 2004 as exportações variaram 28,27%, em relação ao mesmo período de 2003, superando faturamento de US$ 280 milhões. A associação espera que o fechamento de 2004 tenha registrado aumento de 20% nas vendas externas e que esse nível de crescimento deva se repetir em 2005 e 2006.
Em relação aos cosméticos, o grande apelo não é moda. O segredo está em sua composição. Ingredientes naturais da nossa flora, principalmente da Amazônia, despertam a atenção dos consumidores no cenário internacional e começam a fazer sucesso também no mercado interno. Considerados tesouro nacional para os fabricantes de cosméticos, esses ingredientes estão presentes em xampus, condicionadores, sabonetes, cremes e loções e até perfumes.

Fonte de inspiração – A Amazônia é tida como a principal fonte fornecedora de recursos naturais “exóticos”. Porém o Brasil oferece diversas re- giões para extração de ingredientes nativos. “Além da região amazônica, o Boticário utiliza matérias-primas advindas do cerrado, litoral do Nordeste e de florestas de altitude, envolvendo, portanto, as regiões Sul, Nordeste, Norte e Centro-Oeste”, diz Richard Albert Santana Schwarzer, gerente de pesquisa e inovações da empresa.
De acordo com o gerente, o Boticário inclui os ativos brasileiros em diversos produtos, com especial destaque para os itens das linhas Universal Solutions (de cuidados com os cabelos), Nativa (sabonetes), Azulen (cuidados com o corpo), Portinari e Glamour (perfumaria). “Usamos alguns extratos vegetais e água de coco, além de óleos e manteigas da biodiversidade brasileira”, afirma Schwarzer. Para ele, todas as categorias de cosméticos ainda apresentam oportunidades em inovação, no que diz respeito à utilização de ingredientes naturais da nossa flora. “Os produtos para higiene, limpeza e tratamento facial e corporal, de maneira geral, são os que mais exigem ativos com propriedades diferenciadas”, acrescenta.

Preço competitivo – A adoção desses ativos diferenciados não significa perda de competitividade em preço. Segundo Ricardo Fonseca Cardoso, proprietário da Natural Company, os produtos brasileiros estão fazendo sucesso no exterior, pois, além de oferecerem diferenciais devido aos ativos naturais do País, estão no páreo na briga de preços. “Estive no Canadá recentemente e vi que nossos produtos estão sendo comercializados a preços competitivos com os de marcas locais ou mundialmente conhecidas”, afirma Cardoso. “Encontrei itens de L’Occitane e Lush, por exemplo, com preços mais altos, isso contribui para que o produto brasileiro seja ainda mais atrativo”, acrescenta o executivo.
Os cosméticos fabricados com ingredientes brasileiros têm atraído o consumidor de fora até mesmo no Brasil. “Quando mostramos nossos produtos para essas pessoas, seus olhos até brilham”, diz Mariana Sencini, proprietária de uma franquia da Natural Company, inaugurada recentemente em São Paulo. Todos os produtos da empresa são formulados com ativos nacionais. “Temos linhas específicas sem álcool e gordura animal que fazem bastante sucesso”, diz. “Os principais ingredientes que compõem esses produtos são óleos essenciais de castanha-do-pará e cupuaçu, maracujá, guaraná, pitanga e pêssego”.

Embalagens – Na opinião de Sencini, os cosméticos com ativos naturais precisam chamar atenção e para isso devem ser embalados de forma atrativa. “Temos frascos de vidro que lembram produtos antigos e embalagens transparentes que ressaltam o colorido das formulações”, diz a executiva. Na opinião de Fábio Mestriner, presidente da Associação Brasileira de Embalagens (Abre), os ingredientes brasileiros, essencialmente os da Amazônia, necessitam ser destacados na embalagem, pois constituem um forte apelo de vendas. “Graças ao carisma e à repercussão internacional da Amazônia e pelas características naturais destes produtos, suas embalagens não podem se confundir com os produtos industriais, químicos e sintéticos”, afirma.
Segundo o especialista, os materiais devem ser diferenciados em termos de cores, texturas e imagens. “A rica iconografia indígena e suas estampas e padronagens também podem ser utilizadas”. Mestriner afirma que outros produtos brasileiros não provenientes da Amazônia devem seguir o mesmo caminho, e utilizar temas nacionais folclóricos ou tropicais. “Não devemos fazer um uso literal dessas imagens e temas, mas estilizá-los de acordo com as características e sofisticação de cada produto”.

Segmento promissor – Fazer sucesso nesse mercado requer pesquisa e agora é a hora, na opinião de Fátima Chamma, sócia-proprietária da Chamma da Amazônia, uma das empresas brasileiras pioneiras no segmento de produtos com ativos naturais locais. “Estamos vivendo um momento especial para a pesquisa e o desenvolvimento de ingredientes naturais do Brasil com aplicação no setor cosmético”, afirma.
Segundo a executiva, há pouco mais de dez anos, algumas empresas estavam iniciando a comercialização de matérias-primas desse tipo; entretanto, só agora esse mercado está em alta. “Muita gente oferecia ingredientes diferenciados apenas como vitrine, não havia estoque para suprir a demanda”, diz Chamma. “Atualmente, pesquisa e criatividade são ótimos aliados para a elaboração de inovações”.
A Chamma produz aproximadamente 60 mil unidades de cosméticos por mês. Cerca de 90% do seu faturamento vem de produtos que contêm ingredientes nativos. “Realizamos desde pesquisa antropológica, que resgata costumes e hábitos indígenas e das comunidades locais, até a aplicação da tecnologia proposta”, acrescenta Chamma. Açaí, breu-branco, priprioca, castanha-do-pará, murumuru, andiroba, jutaicica e copaíba são ingredientes que fazem parte das fórmulas elaboradas pela empresa. Hoje, a Chamma possui uma loja em Portugal e deverá abrir mais duas por lá, ainda em 2005. “Há interessados, também, na França, Alemanha, Itália, Estados Unidos e Espanha”, revela a executiva.

Conquista de território – A Natura também aposta no mercado externo e investe em ponto-de-venda em outro país, o que contribui para aumentar o sucesso da brasilidade no setor cosmético mundial. Em abril, a empresa deve inaugurar sua primeira loja fora do Brasil, a Maison Natura, no Carrefour de la Croix Rouge, em Saint-Germain des Près, em Paris.
A loja terá espaço de 200 m² e receberá os consumidores com um convite para uma viagem sensorial rumo ao coração das riquezas da biodiversidade brasileira. A experiência na França deve funcionar como um teste para a marca, e, possivelmente, será levada a outros países europeus. Nos próximos três anos, a Natura poderá investir até 12 milhões de euros nesse projeto.

Diversidade de produtos – A grande vedete da Natura para a conquista de território estrangeiro é a linha Natura Ekos. Entre os principais ativos naturais empregados nessa linha estão: andiroba, buriti, castanha-do-Brasil, cupuaçu, guaraná, mate-verde, murumuru, pitanga, camomila, priprioca e breu-branco. Apesar da biodiversidade brasileira oferecer milhares de matérias-primas, a Natura tem apostado na variedade de produtos que pode ser desenvolvida a partir destes ingredientes.
Segundo Isadora Campos, gerente de produto da Natura Ekos, a empresa realiza pesquisas com mais de 50 ingredientes, mas para usá-los em novos produtos são necessários alguns anos de estudos e testes. “Por isso investimos em desenvolvimento de diversos produtos com uma mesma substância, que propiciam benefícios diferentes para as pessoas”, diz Campos. “Há alguns ativos que substituem substâncias sintéticas e nos permitem a ampliação de nosso portfólio de produtos”.
De acordo com a gerente, não é só a Amazônia que fornece ingredientes à empresa. O mate verde vem do Sul e a pitanga e o maracujá, do Sudeste. A Natura utiliza essas matérias-primas em perfumes e produtos para cuidados com o corpo e com os cabelos. São mais de 100 itens de sabonetes, óleos, xampus, condicionadores, colônias, perfumes e aromatizadores. Essa linha é exportada também para países sul-americanos: Argentina, Chile, Peru e Bolívia.

Matérias-primas – O número de ingredientes derivados da flora brasileira tem crescido. Segundo Sérgio Gonçalves, gerente de marketing institucional da Croda do Brasil, esses ativos têm “aumentado muito e de forma consistente”. A Crodamazon – uma divisão que busca pesquisar, desenvolver e aproveitar os derivados de plantas amazônicas, ao mesmo tempo em que promove a preservação dos recursos naturais envolvidos –, por exemplo, iniciou sua linha com quatro produtos e, hoje, oferece mais de dez. “Temos oito óleos, três derivados hidrodispersíveis e um blend, além de matérias-primas exportadas para a França e a inovação contínua”, afirma o executivo, que promete ainda mais produtos para 2005.
Segundo ele, os ativos mais usados no Brasil são os óleos de babaçu e de castanha-do-Brasil, a manteiga de cupuaçu e o maracujá. De acordo com Gonçalves, as matérias-primas brasileiras representam mais de 20% das exportações da companhia. “O mercado europeu é o principal interessado nesses produtos, no entanto há outras regiões que também estão buscando mais informações sobre eles”. De acordo com o executivo, as possibilidades de utilização desses ingredientes são muitas. “Nossos produtos podem ser usados até no setor de limpeza, tanto em sistemas aquosos como oleosos”.
Na Beraca, uma das maiores fornecedoras de ativos naturais brasileiros para o setor cosmético, as vendas dobraram de 2003 para 2004. “Metade de nossas vendas de ingredientes nativos, hoje, vem do mercado externo”, afirma Wilson Corassin, gerente de vendas internacionais da Beraca Ingredients. França, Itália, Alemanha e Estados Unidos são países-destino desses ativos. “Os países asiáticos também têm se mostrado muito interessados em nossos ingredientes, principalmente China e Japão”, acrescenta.

Sustentabilidade – De acordo com o executivo, para vender matérias-primas naturais não basta apresentar exotismo e benefícios diferenciados. “Lá fora, principalmente, os compradores exigem que os fornecedores possuam estruturas sustentáveis, tanto para o meio ambiente quanto para as pessoas das comunidades de onde obtêm os ativos”, ressalta Corassin.
Segundo ele, a Beraca se prepara fortemente para atender a essas exigências. “Investimos muito na unidade de Belém: no setor de bioprospecção (há um agrônomo responsável por este setor), refinaria e capacidade produtiva”, afirma. Corassin conta que, há três anos, muitas empresas brasileiras vêm tentando exportar ativos naturais, mas não possuem estrutura para atender aos pedidos.
Agora talvez seja o momento para as empresas mergulharem fundo no tema brasilidade. Vale lembrar o otimismo da campanha “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”, lançada no ano passado pela Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) com o objetivo de resgatar a auto-estima da população. Como diz uma música dos Titãs, “as idéias estão no chão, você tropeça e acha a solução”

Vitrine brasileira em Paris

No início a “expedição” na Maison Natura, os clientes terão às mãos produtos da linha Ekos, para que possam experimentar texturas, cores e aromas. No decorrer da aventura, as pessoas conhecerão os ingredientes utilizados pela Natura, as comunidades tradicionais de onde a empresa obtém essas matéria-primas e como são praticadas as atividades de desenvolvimento sustentável. Os clientes poderão prolongar sua “degustação sensorial”, por meio de uma massagem nas mãos ou nos pés, ao entrar na sala de banho. Também terão oportunidade para tomar um típico cafezinho brasileiro ou suco de frutas exóticas no bar, onde encontrarão livros, revistas e músicas brasileiros. Quem sabe essa seja uma maneira de cativar com ginga o pessoal lá de fora.


 


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