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Especial Cosméticos
Não
são apenas futebol e carnaval que promovem o
Brasil lá fora. A imagem do País – “bonito
por natureza”, como canta Jorge Ben Jor – tem sido
utilizada em diversos setores da indústria e de serviços
para levar ao mundo produtos com características verde-amarelas.
Desde commodities, histórica e economicamente fortes – como
soja, café e laranja – a itens de moda, as mercadorias
do Brasil, em geral, estão em alta no mercado externo. Exotismo,
alegria, matérias-primas exclusivas e desenvolvimento sustentável
de recursos naturais são fatores que incrementam o portfólio
canarinho. Entre os casos de sucesso, como as sandálias
Havaianas e o refrigerante de guaraná da Antártica,
os cosméticos daqui conquistam cada vez mais espaço
e interesse do consumidor internacional. É a brasilidade
gingando mundo afora.
Uma das primeiras portas que foram abertas para a maior divulgação
da brasilidade no mercado mundial foi a comercialização
no Duty Free de alguns itens genuinamente brasileiros, como a linha
Natura Ekos, da Natura, a cachaça 51 e as famosas Havaianas.
Há cerca de dois anos, o Boticário, por exemplo,
incluiu seus produtos nos free shoppings dos principais aeroportos
do País. Segundo executivos do setor, essa é uma
das iniciativas pioneiras que contribuíram para enriquecer
a vitrine brasileira e chamar atenção do público
externo.
De acordo com a Abihpec, as atividades do setor de higiene pessoal,
perfumaria e cosméticos voltadas ao mercado internacional
devem continuar a crescer neste ano. Os dados divulgados na Cosmoprof
Cosmética 2004, no semestre passado, mostram que até julho
de 2004 as exportações variaram 28,27%, em relação
ao mesmo período de 2003, superando faturamento de US$ 280
milhões. A associação espera que o fechamento
de 2004 tenha registrado aumento de 20% nas vendas externas e que
esse nível de crescimento deva se repetir em 2005 e 2006.
Em relação aos cosméticos, o grande apelo
não é moda. O segredo está em sua composição.
Ingredientes naturais da nossa flora, principalmente da Amazônia,
despertam a atenção dos consumidores no cenário
internacional e começam a fazer sucesso também no
mercado interno. Considerados tesouro nacional para os fabricantes
de cosméticos, esses ingredientes estão presentes
em xampus, condicionadores, sabonetes, cremes e loções
e até perfumes.
Fonte
de inspiração – A Amazônia é tida
como a principal fonte fornecedora de recursos naturais “exóticos”.
Porém o Brasil oferece diversas re- giões para extração
de ingredientes nativos. “Além da região amazônica,
o Boticário utiliza matérias-primas advindas do cerrado,
litoral do Nordeste e de florestas de altitude, envolvendo, portanto,
as regiões Sul, Nordeste, Norte e Centro-Oeste”, diz
Richard Albert Santana Schwarzer, gerente de pesquisa e inovações
da empresa.
De acordo com o gerente, o Boticário inclui os ativos brasileiros
em diversos produtos, com especial destaque para os itens das linhas
Universal Solutions (de cuidados com os cabelos), Nativa (sabonetes),
Azulen (cuidados com o corpo), Portinari e Glamour (perfumaria). “Usamos
alguns extratos vegetais e água de coco, além de óleos
e manteigas da biodiversidade brasileira”, afirma Schwarzer.
Para ele, todas as categorias de cosméticos ainda apresentam
oportunidades em inovação, no que diz respeito à utilização
de ingredientes naturais da nossa flora. “Os produtos para
higiene, limpeza e tratamento facial e corporal, de maneira geral,
são os que mais exigem ativos com propriedades diferenciadas”,
acrescenta.
Preço
competitivo – A adoção desses
ativos diferenciados não significa perda de competitividade
em preço. Segundo Ricardo Fonseca Cardoso, proprietário
da Natural Company, os produtos brasileiros estão fazendo
sucesso no exterior, pois, além de oferecerem diferenciais
devido aos ativos naturais do País, estão no páreo
na briga de preços. “Estive no Canadá recentemente
e vi que nossos produtos estão sendo comercializados a preços
competitivos com os de marcas locais ou mundialmente conhecidas”,
afirma Cardoso. “Encontrei itens de L’Occitane e Lush,
por exemplo, com preços mais altos, isso contribui para
que o produto brasileiro seja ainda mais atrativo”, acrescenta
o executivo.
Os cosméticos fabricados com ingredientes brasileiros têm
atraído o consumidor de fora até mesmo no Brasil. “Quando
mostramos nossos produtos para essas pessoas, seus olhos até brilham”,
diz Mariana Sencini, proprietária de uma franquia da Natural
Company, inaugurada recentemente em São Paulo. Todos os
produtos da empresa são formulados com ativos nacionais. “Temos
linhas específicas sem álcool e gordura animal que
fazem bastante sucesso”, diz. “Os principais ingredientes
que compõem esses produtos são óleos essenciais
de castanha-do-pará e cupuaçu, maracujá, guaraná,
pitanga e pêssego”.
Embalagens – Na opinião de Sencini, os cosméticos
com ativos naturais precisam chamar atenção e para
isso devem ser embalados de forma atrativa. “Temos frascos
de vidro que lembram produtos antigos e embalagens transparentes
que ressaltam o colorido das formulações”,
diz a executiva. Na opinião de Fábio Mestriner, presidente
da Associação Brasileira de Embalagens (Abre), os
ingredientes brasileiros, essencialmente os da Amazônia,
necessitam ser destacados na embalagem, pois constituem um forte
apelo de vendas. “Graças ao carisma e à repercussão
internacional da Amazônia e pelas características
naturais destes produtos, suas embalagens não podem se confundir
com os produtos industriais, químicos e sintéticos”,
afirma.
Segundo o especialista, os materiais devem ser diferenciados em
termos de cores, texturas e imagens. “A rica iconografia
indígena e suas estampas e padronagens também podem
ser utilizadas”. Mestriner afirma que outros produtos brasileiros
não provenientes da Amazônia devem seguir o mesmo
caminho, e utilizar temas nacionais folclóricos ou tropicais. “Não
devemos fazer um uso literal dessas imagens e temas, mas estilizá-los
de acordo com as características e sofisticação
de cada produto”.
Segmento
promissor – Fazer sucesso nesse mercado requer
pesquisa e agora é a hora, na opinião de Fátima
Chamma, sócia-proprietária da Chamma da Amazônia,
uma das empresas brasileiras pioneiras no segmento de produtos
com ativos naturais locais. “Estamos vivendo um momento especial
para a pesquisa e o desenvolvimento de ingredientes naturais do
Brasil com aplicação no setor cosmético”,
afirma.
Segundo a executiva, há pouco mais de dez anos, algumas
empresas estavam iniciando a comercialização de matérias-primas
desse tipo; entretanto, só agora esse mercado está em
alta. “Muita gente oferecia ingredientes diferenciados apenas
como vitrine, não havia estoque para suprir a demanda”,
diz Chamma. “Atualmente, pesquisa e criatividade são ótimos
aliados para a elaboração de inovações”.
A Chamma produz aproximadamente 60 mil unidades de cosméticos
por mês. Cerca de 90% do seu faturamento vem de produtos
que contêm ingredientes nativos. “Realizamos desde
pesquisa antropológica, que resgata costumes e hábitos
indígenas e das comunidades locais, até a aplicação
da tecnologia proposta”, acrescenta Chamma. Açaí,
breu-branco, priprioca, castanha-do-pará, murumuru, andiroba,
jutaicica e copaíba são ingredientes que fazem parte
das fórmulas elaboradas pela empresa. Hoje, a Chamma possui
uma loja em Portugal e deverá abrir mais duas por lá,
ainda em 2005. “Há interessados, também, na
França, Alemanha, Itália, Estados Unidos e Espanha”,
revela a executiva.
Conquista
de território – A Natura também
aposta no mercado externo e investe em ponto-de-venda em outro
país, o que contribui para aumentar o sucesso da brasilidade
no setor cosmético mundial. Em abril, a empresa deve inaugurar
sua primeira loja fora do Brasil, a Maison Natura, no Carrefour
de la Croix Rouge, em Saint-Germain des Près, em Paris.
A loja terá espaço de 200 m² e receberá os
consumidores com um convite para uma viagem sensorial rumo ao coração
das riquezas da biodiversidade brasileira. A experiência
na França deve funcionar como um teste para a marca, e,
possivelmente, será levada a outros países europeus.
Nos próximos três anos, a Natura poderá investir
até 12 milhões de euros nesse projeto.
Diversidade
de produtos – A grande vedete da Natura para
a conquista de território estrangeiro é a linha Natura
Ekos. Entre os principais ativos naturais empregados nessa linha
estão: andiroba, buriti, castanha-do-Brasil, cupuaçu,
guaraná, mate-verde, murumuru, pitanga, camomila, priprioca
e breu-branco. Apesar da biodiversidade brasileira oferecer milhares
de matérias-primas, a Natura tem apostado na variedade de
produtos que pode ser desenvolvida a partir destes ingredientes.
Segundo Isadora Campos, gerente de produto da Natura Ekos, a empresa
realiza pesquisas com mais de 50 ingredientes, mas para usá-los
em novos produtos são necessários alguns anos de
estudos e testes. “Por isso investimos em desenvolvimento
de diversos produtos com uma mesma substância, que propiciam
benefícios diferentes para as pessoas”, diz Campos. “Há alguns
ativos que substituem substâncias sintéticas e nos
permitem a ampliação de nosso portfólio de
produtos”.
De acordo com a gerente, não é só a Amazônia
que fornece ingredientes à empresa. O mate verde vem do
Sul e a pitanga e o maracujá, do Sudeste. A Natura utiliza
essas matérias-primas em perfumes e produtos para cuidados
com o corpo e com os cabelos. São mais de 100 itens de sabonetes, óleos,
xampus, condicionadores, colônias, perfumes e aromatizadores.
Essa linha é exportada também para países
sul-americanos: Argentina, Chile, Peru e Bolívia.
Matérias-primas – O número de ingredientes
derivados da flora brasileira tem crescido. Segundo Sérgio
Gonçalves, gerente de marketing institucional da Croda do
Brasil, esses ativos têm “aumentado muito e de forma
consistente”. A Crodamazon – uma divisão que
busca pesquisar, desenvolver e aproveitar os derivados de plantas
amazônicas, ao mesmo tempo em que promove a preservação
dos recursos naturais envolvidos –, por exemplo, iniciou
sua linha com quatro produtos e, hoje, oferece mais de dez. “Temos
oito óleos, três derivados hidrodispersíveis
e um blend, além de matérias-primas exportadas para
a França e a inovação contínua”,
afirma o executivo, que promete ainda mais produtos para 2005.
Segundo ele, os ativos mais usados no Brasil são os óleos
de babaçu e de castanha-do-Brasil, a manteiga de cupuaçu
e o maracujá. De acordo com Gonçalves, as matérias-primas
brasileiras representam mais de 20% das exportações
da companhia. “O mercado europeu é o principal interessado
nesses produtos, no entanto há outras regiões que
também estão buscando mais informações
sobre eles”. De acordo com o executivo, as possibilidades
de utilização desses ingredientes são muitas. “Nossos
produtos podem ser usados até no setor de limpeza, tanto
em sistemas aquosos como oleosos”.
Na Beraca, uma das maiores fornecedoras de ativos naturais brasileiros
para o setor cosmético, as vendas dobraram de 2003 para
2004. “Metade de nossas vendas de ingredientes nativos, hoje,
vem do mercado externo”, afirma Wilson Corassin, gerente
de vendas internacionais da Beraca Ingredients. França,
Itália, Alemanha e Estados Unidos são países-destino
desses ativos. “Os países asiáticos também
têm se mostrado muito interessados em nossos ingredientes,
principalmente China e Japão”, acrescenta.
Sustentabilidade – De
acordo com o executivo, para vender matérias-primas naturais
não basta apresentar exotismo
e benefícios diferenciados. “Lá fora, principalmente,
os compradores exigem que os fornecedores possuam estruturas sustentáveis,
tanto para o meio ambiente quanto para as pessoas das comunidades
de onde obtêm os ativos”, ressalta Corassin.
Segundo ele, a Beraca se prepara fortemente para atender a essas
exigências. “Investimos muito na unidade de Belém:
no setor de bioprospecção (há um agrônomo
responsável por este setor), refinaria e capacidade produtiva”,
afirma. Corassin conta que, há três anos, muitas empresas
brasileiras vêm tentando exportar ativos naturais, mas não
possuem estrutura para atender aos pedidos.
Agora talvez seja o momento para as empresas mergulharem fundo
no tema brasilidade. Vale lembrar o otimismo da campanha “Eu
sou brasileiro e não desisto nunca”, lançada
no ano passado pela Associação Brasileira de Anunciantes
(ABA) com o objetivo de resgatar a auto-estima da população.
Como diz uma música dos Titãs, “as idéias
estão no chão, você tropeça e acha a
solução”
Vitrine brasileira em Paris
No
início a “expedição” na
Maison Natura, os
clientes terão às mãos produtos
da linha Ekos,
para que possam experimentar texturas, cores
e aromas. No decorrer da aventura, as pessoas
conhecerão os ingredientes utilizados pela
Natura, as comunidades tradicionais de onde a
empresa obtém essas matéria-primas
e como
são praticadas as atividades de desenvolvimento
sustentável.
Os clientes poderão prolongar sua “degustação
sensorial”, por meio de uma
massagem
nas mãos ou nos pés, ao entrar na sala
de
banho. Também terão oportunidade para
tomar
um típico cafezinho brasileiro ou suco de
frutas exóticas no bar, onde encontrarão
livros,
revistas e músicas brasileiros. Quem sabe
essa seja uma maneira de cativar com ginga o
pessoal lá de fora.
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