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Especial Cosméticos
Para
conquistar o consumidor, as principais ferramentas são
velhas conhecidas no mundo dos negócios: produto com qualidade
e valor agregado, além da capacitação dos
profissionais de revenda
Foi
em meados do século XVIII que a venda direta começou.
Uma das pioneiras nesse segmento foi a Enciclopédia Britânica,
que adotou o sistema para comercializar suas coleções
de livros. Outros exemplos remetem a uma sensação
mais caseira, como a do entregador de leite, a vendedora de chocolates
e a moça do Yakult. Atualmente, entretanto, o mercado de
venda direta é estratégico e competitivo tanto para
profissionais independentes quanto para grandes corporações
multinacionais, que apostam na proximidade entre o vendedor e o
cliente para conquistar resultados positivos de negócios.
Nos últimos cinco anos, o movimento do setor de vendas
diretas no Brasil aumentou cerca de 190%, em valor. No terceiro
trimestre de 2004, a Associação Brasileira de Empresas
de Vendas Diretas – ABEVD – apontou incremento de 14%
em relação ao mesmo período de 2003. De acordo
com a associação, levando-se em consideração
o IPCA do período, o crescimento real do volume de negócios
em vendas diretas foi de 7,1%, totalizando faturamento de R$ 2,5
bilhões, contra R$2,2 bilhões em 2003. No acumulado
dos três primeiros trimestres de 2004, esse número
chega a R$ 7 bilhões.
Para
o presidente da ABEVD, Paulo Quaglia, o incremento das vendas
diretas, no ano passado, foi impulsionado pelo aumento da produtividade.
Segundo ele, os bons resultados foram obtidos devido a investimentos
em treinamento, maior quantidade de produtos com alto valor agregado
e preço competitivo. “O crescimento não é uma
surpresa para as empresas do setor, que, nos últimos cinco
anos, têm conquistado boa performance mesmo enfrentando as
instabilidades econômicas e políticas que marcaram
a macroeconomia do País”. No ano passado, atuavam
com vendas diretas 1,3 milhão de pessoas.
| Em
2003, as atividades de vendas diretas, no Brasil,
registraram aumento de 18%, comparado ao ano
anterior |
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Sinal
verde – Em 2003, as atividades desse setor, no Brasil,
registraram aumento de 18%, comparado ao ano anterior. O faturamento
das empresas atuantes chegou a R$ 8,1 bilhões, com 822 milhões
de itens vendidos. O crescimento real do segmento ficou em 8% contra
um aumento estimado de 0,5% do PIB.
Cosméticos, perfumes, bijuterias e vestuário
foram responsáveis por quase 90% do faturamento total das
vendas diretas. Profissionais dessa área afirmam que o caminho
está livre para o crescimento, basta que as empresas mantenham
os investimentos. Utilidades domésticas, produtos de limpeza,
cama, mesa e banho ficaram com aproximadamente 8% do total. O restante
ficou com complementos nutricionais e outros produtos.
Conquista de espaço – Sem números muito expressivos
de crescimento percentual, porém constantes, aumenta a cada
ano a representatividade do porta-a-porta no setor cosmético,
tanto em valor quanto em volume. Em toneladas comercializadas,
desde 1998, foi no ano passado que a venda direta registrou sua
maior participação, chegando a 5,3%. Em faturamento,
a representatividade desse canal de distribuição
foi de 24,3% (veja gráfico na pág 40).
Segundo a Abihpec, em 2003, foram comercializadas, por meio da
venda direta, 53.048 toneladas de cosméticos, perfumes e
produtos de higiene pessoal, o que representa uma variação
de 7% em comparação com o ano anterior. Esse volume,
somado aos outros canais de distribuição (atacado,
varejo e franquias), resulta em 999.889 toneladas. Em faturamento,
as vendas diretas de produtos cosméticos e de higiene pessoal
movimentaram R$ 2,6 bilhões, representando crescimento de
20,9% em relação ao ano anterior (veja tabela na
pág 40).
Venda
calorosa – O ponto alto da venda direta, segundo os
profissionais do setor, é o relacionamento mais próximo
entre o revendedor de cosméticos e o cliente. Segundo Rita
Madeira, gerente de marketing da Sara Lee, esse sistema possibilita
que o consumidor receba atendimento diferenciado e conheça
os produtos com detalhamento. “A venda direta é calorosa”,
diz. Atualmente, a praça mais importante para os negócios
da empresa é o México. No Brasil, as vendas da companhia
iniciaram há cerca de quatro anos e sua operação
(instalação de unidade produtiva) começou
há dois anos. Hoje, são aproximadamente 20 mil consultoras
e 300 funcionários no País.
A Sara Lee oferece produtos para todos os públicos, mas
possui duas linhas que considera premium: a de fragrâncias
e a de itens para cuidados com a pele. “Fragrâncias
são nosso carro-chefe”, diz. De acordo com Madeira,
a venda direta é um caminho promissor para comercializar
produtos com alto valor agregado. “A proximidade do consultor
com o cliente contribui para que as pessoas entendam por que os
produtos têm um preço superior em relação
aos populares”. Outro benefício, segundo a executiva, é a
logística. “Diferente do varejo, conseguimos dividir
a demanda durante o mês, o que facilita a distribuição
e evita a falta de produtos”, acrescenta.
Aspecto
humano – A principal força da venda direta,
segundo executivos do setor, é o bom relacionamento entre
o vendedor e o consumidor. De acordo com Milagros Garcia de Gracia,
proprietária da Bio Sentidos, de Pindamonhangaba/ SP, um
dos diferenciais que contribuem para o sucesso dessa atividade é a
formação das pessoas. Para ela, o mercado profissional
de vendedores ou representantes na área cosmética
está se aperfeiçoando. “A venda direta implica
no treinamento das pessoas para explicar e demonstrar os benefícios
dos produtos ao consumidor, que está cada vez mais exigente”,
diz Gracia.
Na opinião da executiva, assim como acontece no segmento
farmacêutico – em que os vendedores são fortemente
treinados e, muitas vezes, contam com equipamentos de tecnologia
avançados, como lap tops e sistemas de informação
exclusivos – comprometimento em aprender é uma característica
essencial para o profissional de venda direta, que soma à capacidade
de relacionamento. “Preparamos cerca de 20 representantes,
com materiais que complementam o treinamento, como um guia de beleza
desenvolvido internamente e matérias e artigos de revistas
especializadas”. Os profissionais atuam no interior de São
Paulo, em São José, Taubaté, Campinas e Campos
do Jordão, além de regiões próximas
a estas cidades.
Ingredientes
diferenciados – Além da capacitação
dos vendedores, a formulação também tem forte
influência na decisão de compra do consumidor de venda
direta. De acordo com Gracia, produtos com valor agregado ou premium
são altamente procurados por esse público. “As
pessoas estão mais exigentes, querem saber como usar e o
porquê, e estão dispostas a pagar um valor mais alto
por produtos que trazem fórmulas mais ricas que os itens
vendidos nos supermercados”, diz a executiva.
A Bio Sentidos fabrica 20 linhas de tratamento para a pele, incluindo
cosméticos naturais (produzidos artesanalmente, sem uso
de ingredientes sintéticos). Os principais itens da marca
são sabonetes em barra e óleos vegetais para pós-banho
e rosto. Segundo Gracia, os produtos Bio Sentidos são ricos
em ativos e substâncias naturais que contribuem para a saúde
do corpo. “Em um ano e meio de atividade no mercado, notamos
um crescimento das vendas de itens para higienização íntima
e clareadores (que atuam para amenizar a vermelhidão na
pele queimada pelo sol)”.
Preços
competitivos – Investir em formulações
diferenciadas nem sempre significa oferecer produtos com preços
mais altos. A Yakult Cosmetics, que também utiliza a venda
direta, possui produtos premium e outros com preços mais
acessíveis, que, entretanto, não estão no
time dos itens populares. “Temos uma linha facial premium,
com rica formulação, importada do Japão, com
preço mais alto, e produtos com preços mais acessíveis,
que não chegam a ser populares, incluindo maquiagem, perfumaria
feminina e masculina e itens para corpo e cabelos corporal”,
diz Célia Lima, gerente de marketing da empresa.
A Yakult Cosmetics conta com uma equipe de 60 pessoas, que atuam
nas áreas técnica, comercial e administrativa. “Nossos
funcionários, incluindo promotoras e consultoras de beleza,
são capacitados de acordo com suas funções
e atividades quase em tempo integral”, afirma a executiva.
Além da venda direta, a empresa tem duas lojas de varejo,
que funcionam como show room da marca.
Meio
a meio – Algumas empresas adotam mais de um sistema
de vendas. A Contém 1g, por exemplo, atua em venda direta
(no Brasil e em alguns países da América Latina)
e com franquias (no Brasil, AL e Europa). A empresa tem três
linhas de produtos na categoria premium: Monoï, para cabelos
e pele (com óleo do coco nucifera e extrato de flor do tiaré,
que é considerada a gardênia taitiana), Luxo (produtos
desenvolvidos para “um spa particular”, com embalagens
sofisticadas) e uma linha de produtos para corpo, formulados com
proteína de soja. “Esses itens contêm ingredientes
ricos, que oferecem resultados diferenciados”, afirma Cláudia
Longo, gerente de comunicação e marketing para venda
direta da Contém 1g.
Cinqüenta por cento do faturamento da empresa vêm da
venda direta e a outra metade, das lojas franquiadas. “Não
temos pesquisas que mostrem em qual canal se vende mais produtos
premium, mas como na venda direta existe um atendimento personalizado,
creio que seja muito mais fácil convencer o consumidor a
comprar produtos com maior valor agregado, pois eles os conhecem
com mais profundidade e até os experimentam antes de adquiri-los”,
comenta. A Contém1g possui 190 franquias e conta com cerca
de 20 mil revendedoras ativas, que fazem pedidos de produtos semanalmente.
Grandes
investimentos – Algumas empresas apostam em investimentos
expressivos para incrementar seus negócios de venda direta.
A Natura é uma delas. No início da década,
a empresa reformulou sua imagem e investiu mais de R$ 36 milhões
numa série de ações que visavam ampliar sua
participação no Brasil e em outros países
da América Latina. Nos últimos anos, foram investidos
milhões no aumento de capacidade produtiva. Em 2003, o faturamento
da empresa aumentou 35,35% em relação a 2002, totalizando
R$ 1,91 bilhões.
A Avon, que comercializa produtos mais populares, divulgou que
as vendas mundiais do terceiro trimestre de 2004 apresentaram um
crescimento de 11% totalizando US$ 1,78 bilhão. No mesmo
período do ano passado, a empresa alcançou a cifra
de US$ 1,60 bilhão. Na América Latina, as vendas
desse período aumentaram 8% em dólar e 13% em moeda
local, refletindo a retomada do crescimento da região, em
particular na Venezuela e no Brasil.
Só Premium – Com uma linha de cosméticos e
itens de higiene pessoal a preços bem mais alto do que os
populares encontrados no varejo, a Nu Skin Brasil busca estratégias
financeiras para impulsionar suas vendas. Entre elas, está nacionalizar,
em dois anos, a fabricação de 80% dos itens vendidos. “Essa é uma
empresa com potencial para faturar de US$ 80 a US$ 100 milhões,
quando? eu não posso dizer”, disse o executivo João
Bosco Maggiori, presidente da Nu Skin Brasil, em entrevista para
as Notas de Mercado da H&C, em 26 de maio deste ano.
Outra ação apresentada pelo executivo foi o investimento
da matriz no Brasil, por meio de uma redução de até 40%
nos itens importados comercializados. “Essa estratégia
não traz lucro, pelo contrário, porém fará com
que a Nu Skin ganhe mercado, para depois se consolidar com a venda
de produtos nacionais”, explica. Hoje, a empresa opera com
um posicionamento de preço de 15% a 20% acima da Natura.
A previsão do executivo é nacionalizar de 15 a 20
produtos por ano. A fabricação nacional é feita
pela Lipson, por meio de linha exclusiva, com equipamentos da Nu
Skin.
A Nu Skin é uma multinacional americana de venda direta,
presente em 35 países e fatura US$ 1,1 bilhão mundialmente.
O Japão é seu maior mercado e responde por 50% desse
faturamento.
Network – Um dos fatores que atrai as pessoas para atuarem
em venda direta é a possibilidade de construção
de redes de relacionamento e venda. Por esse sistema, os revendedores
são profissionais autônomos, sem vínculos empregatícios,
que ganham com o que vendem e têm participação
nas vendas dos revendedores de sua rede. Sachie Somoki, executiva
representante da Nu Skin, que atua há seis anos no ramo,
possui uma carteira de clientes com aproximadamente 1,5mil pessoas. “Nossos
clientes também podem se tornar revendedores, o que possibilita
construir uma cadeia que nomeamos de networking, onde fazemos carreira
e recebemos porcentagens do lucro de todos os agregados”,
afirma Somoki.
A executiva destaca a importância de se conhecer as tecnologias
empregadas nos produtos e seus benefícios. “Nesse
sistema precisamos levar ao consumidor as informações
por meio de um atendimento personalizado”, diz. Essa receita
de sucesso, aliada às possibilidades reais de ganho para
o bolso, faz com que a venda direta obtenha cada vez mais adeptos.
O resultado: mais venda e maior representatividade como canal de
distribuição.
“A venda
direta implica no treinamento das pessoas para
explicar e demonstrar os benefícios
dos produtos ao consumidor, que
está cada vez mais exigente” |
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