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Especial Cosméticos
Após anos de desmatamento em nome do progresso, os países,
sejam eles desenvolvidos ou em desenvolvimento, despertam suas
atenções para a preservação da natureza.
Com diversas campanhas promovidas pelo mundo por organizações
não-governamentais, a ecologia vem, aos poucos, conquistando
os consumidores, cada vez mais envolvidos com a consciência
ambiental.
Hoje em dia, com a natureza mais distante e devastada, o que se
vê é uma preocupação da população
em contribuir para a preservação da fauna, da flora
e da biodiversidade mundial. Além de promoverem o desenvolvimento
sustentável, tão apregoado, algumas indústrias
químicas e cosméticas apostam em ingredientes naturais
para dar ao consumidor final benefícios para sua qualidade
de vida.
Com uma das maiores biodiversidades do mundo, a Amazônia é um
dos trunfos do Brasil para a obtenção de matérias-primas
naturais para a fabricação de cosméticos.
A exigência por produtos naturais vem, principalmente, dos
consumidores de países mais desenvolvidos, como Alemanha,
Japão e Estados Unidos e, aos poucos, está chegando
ao Brasil.
Segundo Rogério Mancini, gerente de vendas da Volp, empresa
distribuidora de matéria-prima para cosméticos, os óleos
amazônicos representam apenas 0,01% no total de produtos
comercializados pela empresa. “A utilização
de óleos amazônicos no mercado cosmético nacional
ainda é pouco expressiva”, afirma. Mas o segmento
está em crescimento e, a cada dia, é maior a quantidade
de empresas de cosméticos que apostam nesta tendência.
Campanha educativa - Desde agosto de 2001, a Volp tem investido
na distribuição de matérias-primas fabricadas
pela Croda a partir de ingredientes amazônicos. Segundo a
empresa, são óleos e extratos vegetais que podem
ser utilizados em diversas formulações na área
cosmética, como cremes e loções, batons, óleos
para banhos, condicionadores, máscaras capilares, emulsões
pós-barba, desodorantes e produtos solares.
Porém, para vender essas matérias-primas, é preciso
estimular sua utilização. Por isso, a Volp e a Croda
se uniram numa campanha de incentivo e conscientização
das indústrias sobre o uso e os benefícios dos ingredientes
amazônicos. “Quando uma empresa quer utilizar algum óleo
amazônico, fazemos o desenvolvimento e apresentamos o produto
junto com um relatório de aplicação e vantagens”,
explica o gerente da Volp.
Crodamazon - Com a crescente procura do mercado por produtos ecologicamente
corretos, a Croda, uma multinacional inglesa, criou no Brasil
a Crodamazon, uma divisão que busca estudar, pesquisar, desenvolver
e aproveitar os derivados de plantas amazônicas, ao mesmo
tempo em que promove a preservação dos recursos naturais
envolvidos. “Verificamos que a Amazônia é uma
região que possui estrutura e disponibilidade de produtos;
e o mercado já está ávido por itens de origem
vegetal”, diz Miguel de Bellis, diretor geral para o Brasil
da Crodamazon.
A divisão conta com uma unidade em Manaus, responsável
pelo processamento de frutas, polpas, sementes e pela extração
e purificação do óleo utilizado pela indústria
cosmética. Com dois anos de operação, a Crodamazon
exporta matérias-primas para 13 países e, no Brasil,
tem entre seus clientes as principais empresas do segmento cosmético. “Com
os inúmeros casos de doenças como vaca louca e gripe
asiática, as pessoas estão fugindo de produtos feitos
a partir de derivados animais e procurando produtos naturais, conseguidos
a partir da nossa flora”.
Antes da comercialização, os ingredientes
obtidos passam por análises clínicas que asseguram
a isenção de efeitos colaterais e confirmam
sua eficácia. “Além de politicamente corretos,
os ingredientes amazônicos também são vistos
como produtos exóticos, principalmente no exterior, o que é um
forte apelo de vendas”, afirma o diretor da Crodamazon.
Ativos
naturais - A Cognis Brasil, outra fabricante de especialidades
químicas, também está investindo nesta nova
tendência exótica. “Aumenta a cada ano a busca
por ingredientes naturais, que apresentam em sua composição
ausência de óxido de etileno e de sulfato, responsáveis
pelo impacto ambiental e pela irritabilidade”, explica Evandro
Souza, responsável pelo departamento de marketing de Personal
Care. Segundo ele, há alguns anos diversos países
da Europa e da Ásia já estão em processo de
substituição de matérias-primas. “No
Brasil este processo é relativamente recente, mas a pressão
dos consumidores está colocando o mercado de ingredientes
vegetais numa posição mais estratégica”.
Também atuante no segmento de ativos naturais, a Beraca
Ingredients produz e distribui há cinco anos a linha Rain
Forest Specialties, composta por oleaginosas, resinas e óleos
essenciais amazônicos. As exportações correspondem
a 70% das vendas dessa linha. “A eficácia é cientificamente
comprovada através de estudos feitos por universidades,
assim, os produtos naturais não têm somente o exotismo
como atrativo, mas também suas propriedades”, afirma
Christina Santos, supervisora de Personal Care da Beraca.
Com uma fábrica instalada no Pará, Brazmazon, empresa
do mesmo grupo da Beraca, compra sementes da população
cadastrada e faz o beneficiamento – extração
de óleo. Depois, o óleo bruto é transportado
até a unidade da Beraca de Santa Bárbara D’Oeste
(SP), onde passa por outro beneficiamento, para atender às
especificações do mercado cosmético. De lá,
segue para a capital para ser distribuído pela Beraca. “Por
se tratar de ingredientes naturais, este processo de obtenção
de sementes é sazonal e normalmente dura seis meses, indo
até o mês de maio, quando começam as chuvas”,
diz Christina.
Segundo ela, o interesse do mercado por ingredientes naturais vem
da tendência de consumo de busca por bem-estar e qualidade
de vida. “A preocupação com o meio ambiente,
a aromaterapia e até assuntos holísticos, tudo isso
tem impacto positivo na procura por produtos naturais”, diz. “É um
nicho de mercado que está sendo explorado pelas empresas
e é muito bem aceito pelos consumidores”.
Do
regional para o mundo - As essências utilizadas há muito
tempo em algumas regiões do País, em rituais, práticas
tradicionais e ungüentos e chás de cura, ganham ares
de sofisticação e passam a incorporar o portfólio
de produtos de empresas de peso como a Natura, que explora sustentavelmente
as essências de priprioca e breu-branco, e dos extratos vegetais
de murumuru, cupuaçu, castanha-do-pará e cumaru,
entre outros.
“Cada um destes itens possui um benefício específico
para cosméticos e perfumes, seja hidratação,
perfumação, propriedades adstringentes ou refrescantes”,
afirma Marianna Bacchi, gerente de marketing da Givaudan. Segundo
ela, essas propriedades tornam os ingredientes ainda mais atrativos
para o mercado internacional. “Os ingredientes da Amazônia
estão disponíveis para a aquisição de
qualquer produtor de cosmético. O óleo de babaçu
e alguns outros, por exemplo, já foram muitas vezes exportados
para empresas americanas e européias que trabalham com apelos
naturais, como Aveda e Body Shop”, diz a executiva.
Pioneirismo - Uma das primeiras empresas a explorar o apelo dos ingredientes
amazônicos em nosso País foi a Natura,
que lançou a linha Natura Ekos, fabricada com ativos da
biodiversidade brasileira, em setembro de 2000. Para lançar
e divulgar essa linha, composta por mais de 100 itens de sabonetes, óleos,
xampus, condicionadores, cremes e loções, colônias,
perfumes e aromatizadores, foram investidos R$ 11 milhões.
“A empresa optou por fazer desta linha uma plataforma de negócios,
a partir da biodiversidade brasileira, do seu uso sustentável
e da possibilidade de contribuir para o desenvolvimento econômico
e social das comunidades de onde os ativos são retirados”,
afirma Elizabeth Pereira, gerente de marketing da linha Natura Ekos.
Atualmente, a linha é exportada para Argentina, Chile, Peru
e Bolívia e, em breve, deverá chegar à Paris,
quando uma loja da Natura for inaugurada. De acordo com a gerente,
a maioria dos insumos utilizados na fabricação da
linha Natura Ekos é nacional, mas ainda há algumas
matérias-primas importadas que não possuem similares
no Brasil.
“A idéia para o desenvolvimento desta linha surgiu da
visão da empresa de transformar o mercado, já que o
segmento de cosméticos sempre foi focado na utilização
de matérias-primas importadas”, afirma a executiva. “Com
este lançamento, a marca ganhou uma repercussão muito
positiva, principalmente junto aos jovens”. A Natura, que em
2003 registrou um faturamento de R$ 1,9 bilhão, investe 3%
do seu volume de negócios em pesquisa e desenvolvimento.
Novos
adeptos - Recentemente, a Valmari, empresa presente há 24
anos no mercado cosmético nacional, lançou a linha
de sabonetes Valmari Amazônia, nos aromas Açaí e
Marapuama, Cupuaçu e Juá, Guaraná, Copaíba
e Andiroba, Óleo de Pequi e Semente de Linhaça e
Murumuru e Argila Branca da Amazônia. Formulados com massa
vegetal e componentes orgânicos da região amazônica,
os sabonetes são embalados em papel 100% reciclado. Os produtos
são vendidos nas 100 lojas franqueadas da Valmari, no Brasil
e em Portugal.
A indústria de cosméticos Naturelle também
tem novidades. A nova linha Natuflora é composta por óleos
pós-banho formulados a partir de frutos com propriedades
hidratantes e emolientes, como buriti e amêndoas doces. Os
produtos são indicados para serem usados após o banho,
substituindo as loções hidratantes.
Segundo Levi Isaac Kann, diretor da Naturelle, os óleos
são mais agradáveis para o inverno. “Ao sair
do banho, antes de se enxugar, a pele está bem quentinha
e o óleo pode ser aplicado sem ‘choque térmico’;
já a loção normalmente está na temperatura
ambiente, mais fria do que o corpo”, diz Levi.
Para
exportação - Outra marca conhecida no mercado
brasileiro por apostar em ativos vegetais é a OX. O mais
recente lançamento da empresa é a linha OX Brazil,
voltada para a exportação, primeiramente para Portugal.
São oito produtos capilares formulados a partir de matérias-primas
advindas da flora brasileira. Lançada em março deste
ano, a linha OX Brazil foi responsável por 5% das vendas
da empresa somente no primeiro trimestre de comercialização.
Para abastecer o mercado interno, a empresa conta com sabonetes
líquidos glicerinados nas versões Açaí,
Guaraná, Chocolate (cacau), Maracujá e Capim Santo.
As linhas ecologicamente corretas exigiram investimentos de US$
50 mil, para OX Brazil, e US$ 24 mil, nos sabonetes líquidos.
De acordo com Kátia Araújo, gerente de marketing
da OX, a procura por estes produtos vem principalmente do exterior. “Um
exemplo é o óleo de castanha-do-pará que,
com excelentes propriedades umectantes, poderia substituir o óleo
de Amêndoas, óleo cosmético mais procurado
no Brasil”.
De acordo com a executiva, com os trabalhos de desenvolvimento
sustentável, tornou-se viável a utilização
de matérias-primas vegetais obtidas a partir de plantas
e sementes da flora brasileira, viabilizando projetos de novos
ativos, mais eficazes e menos agressivos que os ativos de origem
animal. Em relação às fragrâncias mais
procuradas, quanto mais naturais, melhor. “As tendências
são de composição que misturem os cheiros
de terra, ervas e frutas doces, criando um clima de floresta tropical
em dia de chuva”.
| Descrição |
Propriedades |
| Urucum |
Contém carotenóides
e atua como coadjuvante dos filtros solares |
| Andiroba |
Tem ação antiinflamatória e regeneradora,
podendo fazer parte de formulações cosméticas
para tratamento de celulite e regeneração cutânea.
Uma das suas principais propriedades é seu poder de
repelência de insetos |
| Buriti |
Tem ação anti-envelhecimento graças à presença
de carotenóides e pró-vitamina A. Também
diminui a perda de água da pele, causada pela exposição
solar. |
| Maracujá |
Fornece nutrição e hidratação à pele,
aumentando sua maciez. Também é facilmente absorvido
e não deixa a pele oleosa. |
| Castanha-do-pará |
Forma uma proteção na pele impedindo a evaporação
da água e mantém uma hidratação
prolongada. |
| Copaíba |
Contém beta-carofileno, que promove ação
germicida. Também pode ser utilizado como fixador de
fragrâncias. |
| Ucuúba |
Em associação com o Muru Muru, forma um sabão
com propriedades cicatrizantes e antissépticas. Também
pode substituir a parafina na fabricação de velas. |
| Murumuru |
Promove nutrição, emoliência e hidratação à pele
e aos cabelos. |
| Cupuaçu |
Recupera a umidade e a elasticidade naturais
da pele e dos cabelos secos e danificados, promovendo hidratação. |
| Argila Branca da Amazônia |
Rica em sais minerais que ajudam na eliminação
de toxinas da superfície da pele. Possui nutrientes
que combatem os radicais livres. Pode ser utilizada para regeneração
da pele, hidratação, limpeza, produtos para relaxamento
em banhos de imersão. |
| Açaí |
Revigorante |
| Guaraná |
Energizante, doador de elasticidade |
| Cacau |
Emoliente, umectante |
| Capim Santo |
Relaxante |
| Pequi |
Doador de vitamina C |
| Macella do Campo |
Suavizante e emoliente |
| Jaborandi |
Regulador de pH |
| Menta |
Refrescante |
| Pequi |
Tonificante e nutriente |
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