Cosmotec
 
 , 4 de Setembro de 2010
   Revista - H&C - Household & Cosméticos
Ano V - nº 26 - Jul/Ago - 2004 


Especial Cosméticos

Após anos de desmatamento em nome do progresso, os países, sejam eles desenvolvidos ou em desenvolvimento, despertam suas atenções para a preservação da natureza. Com diversas campanhas promovidas pelo mundo por organizações não-governamentais, a ecologia vem, aos poucos, conquistando os consumidores, cada vez mais envolvidos com a consciência ambiental.
Hoje em dia, com a natureza mais distante e devastada, o que se vê é uma preocupação da população em contribuir para a preservação da fauna, da flora e da biodiversidade mundial. Além de promoverem o desenvolvimento sustentável, tão apregoado, algumas indústrias químicas e cosméticas apostam em ingredientes naturais para dar ao consumidor final benefícios para sua qualidade de vida.
Com uma das maiores biodiversidades do mundo, a Amazônia é um dos trunfos do Brasil para a obtenção de matérias-primas naturais para a fabricação de cosméticos. A exigência por produtos naturais vem, principalmente, dos consumidores de países mais desenvolvidos, como Alemanha, Japão e Estados Unidos e, aos poucos, está chegando ao Brasil.
Segundo Rogério Mancini, gerente de vendas da Volp, empresa distribuidora de matéria-prima para cosméticos, os óleos amazônicos representam apenas 0,01% no total de produtos comercializados pela empresa. “A utilização de óleos amazônicos no mercado cosmético nacional ainda é pouco expressiva”, afirma. Mas o segmento está em crescimento e, a cada dia, é maior a quantidade de empresas de cosméticos que apostam nesta tendência.
Campanha educativa - Desde agosto de 2001, a Volp tem investido na distribuição de matérias-primas fabricadas pela Croda a partir de ingredientes amazônicos. Segundo a empresa, são óleos e extratos vegetais que podem ser utilizados em diversas formulações na área cosmética, como cremes e loções, batons, óleos para banhos, condicionadores, máscaras capilares, emulsões pós-barba, desodorantes e produtos solares.
Porém, para vender essas matérias-primas, é preciso estimular sua utilização. Por isso, a Volp e a Croda se uniram numa campanha de incentivo e cons­cientização das indústrias sobre o uso e os benefícios dos ingredientes amazônicos. “Quando uma empresa quer utilizar algum óleo amazônico, fazemos o desenvolvimento e apresentamos o produto junto com um relatório de aplicação e vantagens”, explica o gerente da Volp.

Crodamazon - Com a crescente procura do mercado por produtos ecologicamente corretos, a Croda, uma multinacional inglesa, criou no Brasil a Crodamazon, uma divisão que busca estudar, pesquisar, desenvolver e aproveitar os derivados de plantas amazônicas, ao mesmo tempo em que promove a preservação dos recursos naturais envolvidos. “Verificamos que a Amazônia é uma região que possui estrutura e disponibilidade de produtos; e o mercado já está ávido por itens de origem vegetal”, diz Miguel de Bellis, diretor geral para o Brasil da Crodamazon.
A divisão conta com uma unidade em Manaus, responsável pelo processa­mento de frutas, polpas, sementes e pela extração e purificação do óleo utilizado pela indústria cosmética. Com dois anos de operação, a Crodamazon exporta matérias-primas para 13 países e, no Brasil, tem entre seus clientes as principais empresas do segmento cosmético. “Com os inúmeros casos de doenças como vaca louca e gripe asiática, as pessoas estão fugindo de produtos feitos a partir de derivados animais e procurando produtos naturais, conseguidos a partir da nossa flora”.
Antes da comercia­li­zação, os ingredientes obtidos passam por análises clínicas que asseguram a isenção de efeitos colate­rais e confirmam sua eficácia. “Além de politicamente corretos, os ingredientes amazônicos também são vistos como produtos exóticos, principalmente no exterior, o que é um forte apelo de vendas”, afirma o diretor da Crodamazon.

Ativos naturais - A Cognis Brasil, outra fabricante de especialidades químicas, também está investindo nesta nova tendência exótica. “Aumenta a cada ano a busca por ingredientes naturais, que apresentam em sua composição ausência de óxido de etileno e de sulfato, responsáveis pelo impacto ambiental e pela irritabilidade”, explica Evandro Souza, responsável pelo departamento de marketing de Personal Care. Segundo ele, há alguns anos diversos países da Europa e da Ásia já estão em processo de substituição de matérias-primas. “No Brasil este processo é relativamente recente, mas a pressão dos consumidores está colocando o mercado de ingredientes vegetais numa posição mais estratégica”.
Também atuante no segmento de ativos naturais, a Beraca Ingredients produz e distribui há cinco anos a linha Rain Forest Specialties, composta por oleaginosas, resinas e óleos essenciais amazônicos. As exportações correspondem a 70% das vendas dessa linha. “A eficácia é cientificamente comprovada através de estudos feitos por universidades, assim, os produtos naturais não têm somente o exotismo como atrativo, mas também suas propriedades”, afirma Christina Santos, supervisora de Personal Care da Beraca.
Com uma fábrica instalada no Pará, Brazmazon, empresa do mesmo grupo da Beraca, compra sementes da população cadastrada e faz o beneficiamento – extração de óleo. Depois, o óleo bruto é transportado até a unidade da Beraca de Santa Bárbara D’Oeste (SP), onde passa por outro beneficiamento, para atender às especificações do mercado cosmético. De lá, segue para a capital para ser distribuído pela Beraca. “Por se tratar de ingredientes naturais, este processo de obtenção de sementes é sazonal e normalmente dura seis meses, indo até o mês de maio, quando começam as chuvas”, diz Christina.
Segundo ela, o interesse do mercado por ingredientes naturais vem da tendência de consumo de busca por bem-estar e qualidade de vida. “A preocupação com o meio ambiente, a aromaterapia e até assuntos holísticos, tudo isso tem impacto positivo na procura por produtos naturais”, diz. “É um nicho de mercado que está sendo explorado pelas empresas e é muito bem aceito pelos consumidores”.

Do regional para o mundo - As essências utilizadas há muito tempo em algumas regiões do País, em rituais, práticas tradicionais e ungüentos e chás de cura, ganham ares de sofisticação e passam a incorporar o portfólio de produtos de empresas de peso como a Natura, que explora sustentavelmente as essências de priprioca e breu-branco, e dos extratos vegetais de murumuru, cupuaçu, castanha-do-pará e cumaru, entre outros.
“Cada um destes itens possui um benefício específico para cosméticos e perfumes, seja hidratação, perfumação, propriedades adstringentes ou refrescantes”, afirma Marianna Bacchi, gerente de marketing da Givaudan. Segundo ela, essas propriedades tornam os ingredientes ainda mais atrativos para o mercado internacional. “Os ingredientes da Amazônia estão disponíveis para a aquisição de qualquer produtor de cosmético. O óleo de babaçu e alguns outros, por exemplo, já foram muitas vezes exportados para empresas americanas e européias que trabalham com apelos naturais, como Aveda e Body Shop”, diz a executiva.

Pioneirismo - Uma das primeiras empresas a explorar o apelo dos ingredientes amazônicos em nosso País foi a Natura, que lançou a linha Natura Ekos, fabricada com ativos da biodiversidade brasileira, em setembro de 2000. Para lançar e divulgar essa linha, composta por mais de 100 itens de sabonetes, óleos, xampus, condicionadores, cremes e loções, colônias, perfumes e aromatizadores, foram investidos R$ 11 milhões.
“A empresa optou por fazer desta linha uma plataforma de negócios, a partir da biodiversidade brasileira, do seu uso sustentável e da possibilidade de contribuir para o desenvolvimento econômico e social das comunidades de onde os ativos são retirados”, afirma Elizabeth Pereira, gerente de marketing da linha Natura Ekos.
Atualmente, a linha é exportada para Argentina, Chile, Peru e Bolívia e, em breve, deverá chegar à Paris, quando uma loja da Natura for inaugurada. De acordo com a gerente, a maioria dos insumos utilizados na fabricação da linha Natura Ekos é nacional, mas ainda há algumas matérias-primas importadas que não possuem similares no Brasil.
“A idéia para o desenvolvimento desta linha surgiu da visão da empresa de transformar o mercado, já que o segmento de cosméticos sempre foi focado na utilização de matérias-primas importadas”, afirma a executiva. “Com este lançamento, a marca ganhou uma repercussão muito positiva, principalmente junto aos jovens”. A Natura, que em 2003 registrou um faturamento de R$ 1,9 bilhão, investe 3% do seu volume de negócios em pesquisa e desenvolvimento.

Novos adeptos - Recentemente, a Valmari, empresa presente há 24 anos no mercado cosmético nacional, lançou a linha de sabonetes Valmari Amazônia, nos aromas Açaí e Marapuama, Cupuaçu e Juá, Guaraná, Copaíba e Andiroba, Óleo de Pequi e Semente de Linhaça e Murumuru e Argila Branca da Amazônia. Formulados com massa vegetal e componentes orgânicos da região amazônica, os sabonetes são embalados em papel 100% reciclado. Os produtos são vendidos nas 100 lojas franqueadas da Valmari, no Brasil e em Portugal.
A indústria de cosméticos Naturelle também tem novidades. A nova linha Natuflora é composta por óleos pós-banho formulados a partir de frutos com propriedades hidratantes e emolientes, como buriti e amêndoas doces. Os produtos são indicados para serem usados após o banho, substituindo as loções hidratantes.
Segundo Levi Isaac Kann, diretor da Naturelle, os óleos são mais agradáveis para o inverno. “Ao sair do banho, antes de se enxugar, a pele está bem quentinha e o óleo pode ser aplicado sem ‘choque térmico’; já a loção normalmente está na temperatura ambiente, mais fria do que o corpo”, diz Levi.

Para exportação - Outra marca conhecida no mercado brasileiro por apostar em ativos vegetais é a OX. O mais recente lançamento da empresa é a linha OX Brazil, voltada para a exportação, primeiramente para Portugal. São oito produtos capilares formulados a partir de matérias-primas advindas da flora brasileira. Lançada em março deste ano, a linha OX Brazil foi responsável por 5% das vendas da empresa somente no primeiro trimestre de comercialização. Para abastecer o mercado interno, a empresa conta com sabonetes líquidos glicerinados nas versões Açaí, Guaraná, Chocolate (cacau), Maracujá e Capim Santo.
As linhas ecologicamente corretas exigiram investimentos de US$ 50 mil, para OX Brazil, e US$ 24 mil, nos sabonetes líquidos. De acordo com Kátia Araújo, gerente de marketing da OX, a procura por estes produtos vem principalmente do exterior. “Um exemplo é o óleo de castanha-do-pará que, com excelentes propriedades umectantes, poderia substituir o óleo de Amêndoas, óleo cosmético mais procurado no Brasil”.
De acordo com a executiva, com os trabalhos de desenvolvimento sustentável, tornou-se viável a utilização de matérias-primas vegetais obtidas a partir de plantas e sementes da flora brasileira, viabilizando projetos de novos ativos, mais eficazes e menos agressivos que os ativos de origem animal. Em relação às fragrâncias mais procuradas, quanto mais naturais, melhor. “As tendências são de composição que misturem os cheiros de terra, ervas e frutas doces, criando um clima de floresta tropical em dia de chuva”.

Descrição Propriedades
Urucum Contém carotenóides e atua como coadjuvante dos filtros solares
Andiroba Tem ação antiinflamatória e regeneradora, podendo fazer parte de formulações cosméticas para tratamento de celulite e regeneração cutânea. Uma das suas principais propriedades é seu poder de repelência de insetos
Buriti Tem ação anti-envelhecimento graças à presença de carotenóides e pró-vitamina A. Também diminui a perda de água da pele, causada pela exposição solar.
Maracujá Fornece nutrição e hidratação à pele, aumentando sua maciez. Também é facilmente absorvido e não deixa a pele oleosa.
Castanha-do-pará Forma uma proteção na pele impedindo a evaporação da água e mantém uma hidratação prolongada.
Copaíba Contém beta-carofileno, que promove ação germicida. Também pode ser utilizado como fixador de fragrâncias.
Ucuúba Em associação com o Muru Muru, forma um sabão com propriedades cicatrizantes e antissépticas. Também pode substituir a parafina na fabricação de velas.
Murumuru Promove nutrição, emoliência e hidratação à pele e aos cabelos.
Cupuaçu Recupera a umidade e a elasticidade naturais da pele e dos cabelos secos e danificados, promovendo hidratação.
Argila Branca da Amazônia Rica em sais minerais que ajudam na eliminação de toxinas da superfície da pele. Possui nutrientes que combatem os radicais livres. Pode ser utilizada para regeneração da pele, hidratação, limpeza, produtos para relaxamento em banhos de imersão.
Açaí Revigorante
Guaraná Energizante, doador de elasticidade
Cacau Emoliente, umectante
Capim Santo Relaxante
Pequi Doador de vitamina C
Macella do Campo Suavizante e emoliente
Jaborandi Regulador de pH
Menta Refrescante
Pequi Tonificante e nutriente


 


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