FCE Cosmetique
 
 , 10 de Fevereiro de 2012
   Revista - H&C - Household & Cosméticos
Ano IV - nº 21- Set/Out - 2003 


Especial Cosméticos

Prática padrão, porém complexa

Há 20 anos, a indústria cosmética  descobria os aminoácidos. Agora,   empresas apostam em fontes vegetais e   combinações sofisticadas para aumentar     suas vendas

Unidades básicas das proteínas, os  aminoácidos (AA) se unem por meio de   ligações peptídicas e formam os   polipeptídeos, também chamados de    proteínas hidrolisadas, que têm na   área cosmética função geral e básica   de formar um filme hidroscópico sobre   a pele ou cabelo. Este filme reduz a   evaporação de água, contribuindo para  o aumento da hidratação.

Na composição natural da pele, diversos tipos de aminoácidos estão presentes no NMF, do inglês Natural Mosturizing Factor, uma espécie de proteção que o corpo produz. Para intensificar essa proteção, os produtos cosméticos buscam substâncias similares às encontradas na pele, por isso os aminoácidos têm grande penetração nessa indústria.
Pode-se dizer o mesmo dos cabelos, que apresentam a queratina como principal proteína natural, compondo 80% do cabelo. Além da queratina, outros tipos de aminoácidos são comumente usados em produtos de cuidados capilares, como a ligação peptídica de colágeno, seda, leite e trigo.

Apesar de não ser uma descoberta recente ou inovadora para a indústria cosmética, a tecnologia de agregar aminoácidos às formulações continua desempenhando um papel fundamental nos produtos desse setor. Além da viabilidade financeira, a adoção de proteínas traz benefícios facilmente percebidos pelos consumidores. Há diversos fornecedores de aminoácidos no mundo, mas um dos que mais se destaca é a japonesa Ajinomoto. Ela vende por ano cerca de 135,9 bilhões de ienes de aminoácidos, o que corresponde a aproximadamente 14% do total das suas operações.

Popular – Grande parte das empresas cosméticas usam os aminoácidos em suas formulações por dois motivos: eficácia e popularidade. “Não precisamos fazer esforço para vender aminoácidos, complexos de aminoácidos ou proteínas. Eles se vendem sozinhos”, diz Solange Tomoe Osuka, gerente de vendas da Ion Química.
Segundo ela, as empresas se sentem obrigadas a agregar essas substâncias nas suas formulações porque os consumidores já sabem muito bem que eles são essenciais para a saúde da pele e do cabelo. A característica primordial dos aminoácidos faz com que eles sejam agregados a muitos tipos de produtos, sem muitas limitações de uso.

Versátil – Os aminoácidos são anfotéricos, ou seja, apresentam cargas positivas e negativas ao mesmo tempo e, dependendo do meio em que se encontram, podem desempenhar efeitos diferentes. Assim, em formulações de condicionadores para cabelo, por exemplo, que costumam ter um pH mais baixo (mais ácido), os aminoácidos conseguem atuar mais como catiônicos, ajudando a neutralizar cargas estáticas e melhorar assim a penteabilidade, aumentar o volume e o brilho dos fios.

Quando eles são aplicados topicamente, na pele, ajudam a epiderme a ter um aspecto mais firme. Dependendo do peso molecular do grupo de aminoácidos em questão, ela pode provocar um “repuxamento” da pele, causando um efeito lifting imediato, o famoso efeito Cinderela (mais detalhes sobre a ação dos aminoácidos na pele e nos cabelos veja a figura ao lado e a tabela da pág. 41).

Artigo de marketing – “A presença de aminoácidos nas fórmulas cosméticas, anos atrás, era um fator importante de diferenciação, pois representava uma tecnologia de ponta para beneficiar a pele; hoje, os aminoácidos são comuns”, diz Vânia Pacchioni, gerente de marketing técnico da Croda. Segundo ela, atualmente, a diferenciação que as empresas buscam está na fonte do aminoácido. “Principalmente no aspecto do marketing isso é mais perceptível”, afirma.

De acordo com a gerente, as empresas, alinhadas com a crescente preocupação ecológica dos consumidores, perceberam que certos tipos de fontes de aminoácidos não são tão “comerciais”. “Nesse novo posicionamento, crescem os aminoácidos que vêm dos vegetais”, diz ela. Ao passo que os aminoácidos e proteínas derivados de animais, como o colágeno, estão perdendo mercado. “O colágeno está deixando de ser usado principalmente porque vem do boi, animal que pode não ser tão saudável como seria necessário”, diz.

Eficácia comprovada – Segundo a Avon, a utilização de ingredientes como proteínas e aminoácidos permite que se tenha uma exploração promocional diferenciada, desde que a eficácia seja comprovada por meio de testes. “Acreditamos que o principal diferencial mercadológico é o de oferecer produtos que vão além do efeito cosmético comum e sejam opções que proporcionam, além do embelezamento, o tratamento”, diz Gustavo Carturan, gerente de qualidade total da Avon.

Atualmente, as proteínas usadas pela Avon são de fontes diversas. “Freqüentemente são utilizadas proteínas derivadas do trigo e do leite. A queratina e o colágeno são comumente usados para suprir as necessidades nutricionais da pele”, afirma Carturan. As linhas Renew, Advance Techniques, Beauty, Zip, Skin So Soft, Clearskin , Linha Basic, Accolade e a nova linha Avon Solutions possuem proteínas e derivados.

Paradoxo – De acordo com Vânia Pacchioni, da Croda, a queratina, que é formada por um tipo de aminoácido advindo de pêlos e chifres de animais (há até queratina fabricada a partir de cabelos humanos), escapa da patrulha ecológica. “As pessoas muitas vezes não sabem de onde vem essa matéria-prima”, diz. Entre os aminoácidos vegetais, na Croda, que “já foi líder absoluta no fornecimento de aminoácidos e proteínas e que hoje divide o mercado com empresas nacionais e internacionais”, o destaque é o Hidra Brazil Nuty AA, o aminoácido extraído da castanha do Brasil (ex-castanha do Pará).

Essa matéria-prima é fabricada na planta inglesa da Croda, com os resíduos da produção do óleo da castanha. Sua principal característica é a carga catiônica que permite mais permanência na pele ou nos cabelos. “Eles resistem mais ao enxágüe”, revela Pacchioni. “Outro aminoácido que começa a ser mais bem explorado é o derivado da batata, alguns itens já os incorporam”, diz ela, lembrando que pouca coisa muda no benefício proporcionado.

Fruto do mar – Alexandre Andréa de Souza, químico responsável da OX, diz que usa colágeno em suas formulações cosméticas desde os anos 70. De três fontes principais derivam o colágeno: vegetais, animais (porcos) e marinho. “A OX trabalha com o colágeno marinho por ser a alternativa mais fácil de encontrar e apresentar custo mais baixo”, diz Souza.

O químico diz que das três fontes de colágeno, a dos porcos é a mais eficiente, entretanto, a empresa nacional acompanha uma tendência mundial. “Há um movimento da indústria mundial contra o sacrifício de animais para extrair o produto, mas no Brasil ainda existe a cultura de uso do colágeno animal”, diz. “Na Europa, o uso vegetal é a mais importante opção da indústria por causa de questões relacionadas à biodiversidade, embora nos últimos tempos a tendência tem sido pelo uso do colágeno marinho”.

Por possuir moléculas muito grandes o colágeno não é absorvido pela pele e nem pelas escamas dos fios de cabelo, porém, é um excelente agente protetor. Isso quer dizer que ele forma uma ótima película protetora. “Vulgarmente chamamos o colágeno de agente de sacrifício, suas moléculas se destróem em contato com as substâncias que fariam mal à pele ou à cutícula capilar”. Na pele, o colágeno retém a perda excessiva de água, reduzindo seu ressecamento e evitando as rugas.

Mimetização – Solange Tomoe, da Ion Química, lembra que já existem no mercado aminoácidos vegetais que mimetizam os que são produzidos a partir de fontes animais. “Há uma espécie de queratina vegetal, que tem uma estrutura molecular muito parecida com a animal; no entanto, trata-se de um arremedo, ela é eficaz no benefício aos cabelos, mas nem tanto”, diz a gerente.

Um exemplo dessa inovação é o pró-colágeno, ativo derivado de vegetais que imita a função de manter a pele firme, assim como o colágeno original o faz. A Nu Skin utiliza essa alternativa no seu produto para suavizar as linhas de expressão da pele, o Tru Face Line Corrector, lançado recentemente no país.

Conceito diferenciado – Os peptídeos de pró-colágeno de Tru Face Line Corrector, de acordo com a Nu Skin, mostraram um grande resultado ao conter a degradação da camada dérmica onde é produzido o colágeno natural. Ele minimiza o aspecto das linhas de expressão mais profundas e as rugas. O minúsculo tamanho molecular destes peptídeos, ligados a uma cadeia de ácido palmítico, permite o aumento da penetração do ativo nas camadas mais superficiais do estrato córneo.

Para não perder as características de ação desses peptídeos, Laura Hideko Mishioka, farmacêutica responsável no Brasil pelos produtos da Nu Skin, explica que uma fórmula diferenciada foi desenvolvida. “O ativo fica bem no centro do produto, podemos vê-lo dentro do frasco. Ele forma uma espiral que aparece separada do resto do gel que também tem ativos para beneficiar a pele”, afirma.

Mesmo utilizando um aminoácido atípico, Mishioka diz que não acredita que os consumidores entendam perfeitamente as diferenças entre aminoácidos animais ou vegetais e que isso não é quesito importante para eles escolherem seus produtos. “Para que os consumidores tivessem essa capacidade, seria necessário explicar muito bem de onde vêm e para que servem os aminoácidos”. Segundo ela, as empresas não agregam aminoácidos diferentes apenas por postura de marketing, visto que esses elementos têm propriedades ímpares e agem com função específica.

Indústria do verde – A tendência dos aminoácidos “verdes” é confirmada pelo Boticário. “Atualmente, utilizamos, preferencialmente, os hidrolisados de proteínas vegetais, como trigo, soja e aveia, em substituição aos hidrolisados de proteínas animais”, diz Richard Albert Santana Schwarzer, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Boticário.

VitaCtive Emulsão Multiativa Anti-Sinais, produto lançado pela empresa paranaense neste ano, apresenta em sua composição os aminoácidos glicina, alanina, prolina, serina, treonina, arginina e lisina. Serina é o aminoácido que está presente em maior proporção na emulsão epicutânia (substância que compõem a pele) natural das pessoas, mas atua em sinergia com os demais aminoácidos (e outros componentes da formulação), mantendo o nível ideal de hidratação da pele. A emulsão também apresenta uma proteína da soja, que ajuda a inibir a ação das enzimas que degradam as fibras de sustentação da pele (colágeno e elastina).

Para tratamento dos cabelos, o Boticário fabrica a linha Universal Solutions que reúne três extratos de proteínas vegetais, trigo, soja e milho, como ingredientes vitais na recuperação da saúde dos fios. O Condicionador Intensivo dessa linha também possui a presença dos aminoácidos da castanha do Brasil.

Mais complexos – As recentes formulações utilizam aminoácidos complexos. Em síntese, eles são formados por um pool de AAs essenciais para o cabelo ou para pele. Nesses complexos, não há limitação para o uso de ativos, desde que eles possam ser ligados quimicamente aos aminoácidos e se estabilizem.

Esses complexos podem representar para a indústria cosmética nacional mais uma arma para concorrer contra a tecnologia de primeiro mundo utilizada pelas empresas globais. “Tanto as brasileiras quanto as multinacionais fazem uso de aminoácidos e proteínas em seus produtos, que, portanto, não constituem diferencial entre nacionais e importados”, diz Richard Albert Santana Schwarzer, do Boticário.

O que pode impedir o uso dessa nova arma complexa é, como sempre, o preço. Enquanto que os aminoácidos custam entre US$ 10 e US$ 50 o quilo (dependendo da procedência, os de origem vegetal são mais caros) e as proteínas entre US$ 10 e US$ 30, os complexos podem custar até US$ 200 o quilo.

Competitividade – De acordo com Christine Botto Valério, pesquisadora de novas tecnologias da Nazca, atualmente as marcas multinacionais vêm utilizando aminoácidos e proteínas com novas tecnologias para aumentar sua substantividade, penetração e efeito de longa duração, controlando sua liberação no cabelo e na pele. “Isso é muito utilizado em produtos anti-envelhecimento, anti-celulite e para cabelos danificados por tratamentos químicos”, diz.
Segundo Valério, as proteínas e os aminoácidos são agentes que tornam os produtos nacionais competitivos em relação aos itens fabricados por multinacionais. “Pode-se dizer que é um diferencial de produto. No sentido mercadológico, mostra que a empresa incorporou mais tecnologia ao produto”.

A queratina está presente em todos os produtos para o cabelo da Nazca, exceto na linha infantil. As linhas Plusline Therma Active, Color Active e Blonde Active empregam também algum tipo de proteína ou aminoácido para melhorar sua performance. Color Active, por exemplo, promete cabelos 70% mais coloridos e brilhantes, usando em sua formulação a
proteína hidrolisada do arroz.

 

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