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Especial Cosméticos
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Prática
padrão, porém complexa
Há
20 anos, a indústria cosmética descobria
os aminoácidos. Agora, empresas apostam
em fontes vegetais e combinações
sofisticadas para aumentar suas vendas
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Unidades
básicas das proteínas, os aminoácidos
(AA) se unem por meio de ligações
peptídicas e formam os polipeptídeos,
também chamados de proteínas
hidrolisadas, que têm na área cosmética
função geral e básica de formar
um filme hidroscópico sobre a pele ou cabelo.
Este filme reduz a evaporação de água,
contribuindo para o aumento da hidratação. |
Na
composição natural da pele, diversos tipos de aminoácidos
estão presentes no NMF, do inglês Natural Mosturizing
Factor, uma espécie de proteção que o corpo
produz. Para intensificar essa proteção, os produtos
cosméticos buscam substâncias similares às encontradas
na pele, por isso os aminoácidos têm grande penetração
nessa indústria.
Pode-se dizer o mesmo dos cabelos, que apresentam a queratina como
principal proteína natural, compondo 80% do cabelo. Além
da queratina, outros tipos de aminoácidos são comumente
usados em produtos de cuidados capilares, como a ligação
peptídica de colágeno, seda, leite e trigo.
Apesar
de não ser uma descoberta recente ou inovadora para a indústria
cosmética, a tecnologia de agregar aminoácidos às
formulações continua desempenhando um papel fundamental
nos produtos desse setor. Além da viabilidade financeira,
a adoção de proteínas traz benefícios
facilmente percebidos pelos consumidores. Há diversos fornecedores
de aminoácidos no mundo, mas um dos que mais se destaca é
a japonesa Ajinomoto. Ela vende por ano cerca de 135,9 bilhões
de ienes de aminoácidos, o que corresponde a aproximadamente
14% do total das suas operações.
Popular
– Grande parte das empresas cosméticas usam os aminoácidos
em suas formulações por dois motivos: eficácia
e popularidade. “Não precisamos fazer esforço
para vender aminoácidos, complexos de aminoácidos
ou proteínas. Eles se vendem sozinhos”, diz Solange
Tomoe Osuka, gerente de vendas da Ion Química.
Segundo ela, as empresas se sentem obrigadas a agregar essas substâncias
nas suas formulações porque os consumidores já
sabem muito bem que eles são essenciais para a saúde
da pele e do cabelo. A característica primordial dos aminoácidos
faz com que eles sejam agregados a muitos tipos de produtos, sem
muitas limitações de uso.
Versátil
– Os aminoácidos são anfotéricos, ou
seja, apresentam cargas positivas e negativas ao mesmo tempo e,
dependendo do meio em que se encontram, podem
desempenhar efeitos diferentes. Assim, em formulações
de condicionadores para cabelo, por exemplo, que costumam ter um
pH mais baixo (mais ácido), os aminoácidos conseguem
atuar mais como catiônicos, ajudando a neutralizar cargas
estáticas e melhorar assim a penteabilidade, aumentar o volume
e o brilho dos fios.
Quando
eles são aplicados topicamente, na pele, ajudam a epiderme
a ter um aspecto mais firme. Dependendo do peso molecular do grupo
de aminoácidos em questão, ela pode provocar um “repuxamento”
da pele, causando um efeito lifting imediato, o famoso efeito Cinderela
(mais detalhes sobre a ação dos aminoácidos
na pele e nos cabelos veja a figura ao lado e a tabela da pág.
41).
Artigo
de marketing – “A presença de
aminoácidos nas fórmulas cosméticas, anos atrás,
era um fator importante de diferenciação, pois representava
uma tecnologia de ponta para beneficiar a pele; hoje, os aminoácidos
são comuns”, diz Vânia Pacchioni, gerente de
marketing técnico da Croda. Segundo ela, atualmente, a diferenciação
que as empresas buscam está na fonte do aminoácido.
“Principalmente no aspecto do marketing isso é mais
perceptível”, afirma.
De
acordo com a gerente, as empresas, alinhadas com a crescente preocupação
ecológica dos consumidores, perceberam que certos tipos de
fontes de aminoácidos não são tão “comerciais”.
“Nesse novo posicionamento, crescem os aminoácidos
que vêm dos vegetais”, diz ela. Ao passo que os aminoácidos
e proteínas derivados de animais, como o colágeno,
estão perdendo mercado. “O colágeno está
deixando de ser usado principalmente porque vem do boi, animal que
pode não ser tão saudável como seria necessário”,
diz.
Eficácia
comprovada
– Segundo a Avon, a utilização de ingredientes
como proteínas e aminoácidos permite que se tenha
uma exploração promocional diferenciada, desde que
a eficácia seja comprovada por meio de testes. “Acreditamos
que o principal diferencial mercadológico é o de oferecer
produtos que vão além do efeito cosmético comum
e sejam opções que proporcionam, além do embelezamento,
o tratamento”, diz
Gustavo Carturan, gerente de qualidade total da Avon.
Atualmente,
as proteínas usadas pela Avon são de fontes diversas.
“Freqüentemente são utilizadas proteínas
derivadas do trigo e do leite. A queratina e o colágeno são
comumente usados para suprir as necessidades nutricionais da pele”,
afirma Carturan. As linhas Renew, Advance Techniques, Beauty, Zip,
Skin So Soft, Clearskin , Linha Basic, Accolade e a nova linha Avon
Solutions possuem proteínas e derivados.
Paradoxo
– De acordo com Vânia Pacchioni, da Croda, a queratina,
que é formada por um tipo de aminoácido advindo de
pêlos e chifres de animais (há até queratina
fabricada a partir de cabelos humanos), escapa da patrulha ecológica.
“As pessoas muitas vezes não sabem de onde vem essa
matéria-prima”, diz. Entre os aminoácidos vegetais,
na Croda, que “já foi líder absoluta no fornecimento
de aminoácidos e proteínas e que hoje divide o mercado
com empresas nacionais e internacionais”, o destaque é
o Hidra Brazil Nuty AA, o aminoácido extraído da castanha
do Brasil (ex-castanha do Pará).
Essa
matéria-prima é fabricada na planta inglesa da Croda,
com os resíduos da produção do óleo
da castanha. Sua principal característica é a carga
catiônica que permite mais permanência na pele ou nos
cabelos. “Eles resistem mais ao enxágüe”,
revela Pacchioni. “Outro aminoácido que começa
a ser mais bem explorado é o derivado da batata, alguns itens
já os incorporam”, diz ela, lembrando que pouca coisa
muda no benefício proporcionado.
Fruto
do mar – Alexandre Andréa de Souza,
químico responsável da OX, diz que usa colágeno
em suas formulações cosméticas desde os anos
70. De três fontes principais derivam o colágeno: vegetais,
animais (porcos) e marinho. “A OX trabalha com o colágeno
marinho por ser a alternativa mais fácil de encontrar e apresentar
custo mais baixo”, diz Souza.
O
químico diz que das três fontes de colágeno,
a dos porcos é a mais eficiente, entretanto, a empresa nacional
acompanha uma tendência mundial. “Há um movimento
da indústria mundial contra o sacrifício de animais
para extrair o produto, mas no Brasil ainda existe a cultura de
uso do colágeno animal”, diz. “Na Europa, o uso
vegetal
é a mais importante opção da indústria
por causa de questões relacionadas à biodiversidade,
embora nos últimos tempos a tendência tem sido pelo
uso do colágeno marinho”.
Por
possuir moléculas muito grandes o colágeno não
é absorvido pela pele e nem pelas escamas dos fios de cabelo,
porém, é um excelente agente protetor. Isso quer dizer
que ele forma uma ótima película protetora. “Vulgarmente
chamamos o colágeno de agente de sacrifício, suas
moléculas se destróem em contato com as substâncias
que fariam mal à pele ou à cutícula capilar”.
Na pele, o colágeno retém a perda excessiva de água,
reduzindo seu ressecamento e evitando as rugas.
Mimetização
– Solange Tomoe, da Ion Química, lembra
que já existem no mercado aminoácidos vegetais que
mimetizam os que são produzidos a partir de fontes animais.
“Há uma espécie de queratina vegetal, que tem
uma estrutura molecular muito parecida com a animal; no entanto,
trata-se de um arremedo, ela é eficaz no benefício
aos cabelos, mas nem tanto”, diz a gerente.
Um
exemplo dessa inovação é o pró-colágeno,
ativo derivado de vegetais que imita a função de manter
a pele firme, assim como o colágeno original o faz. A Nu
Skin utiliza essa alternativa no seu produto para suavizar as linhas
de expressão da pele, o Tru Face Line Corrector, lançado
recentemente no país.
Conceito
diferenciado – Os peptídeos de pró-colágeno
de Tru Face Line Corrector, de acordo com a Nu Skin, mostraram um
grande resultado ao conter a degradação da camada
dérmica onde é produzido o colágeno natural.
Ele minimiza o aspecto das linhas de expressão mais profundas
e as rugas. O minúsculo tamanho molecular destes peptídeos,
ligados a uma cadeia de ácido palmítico, permite o
aumento da penetração do ativo nas camadas mais superficiais
do estrato córneo.
Para
não perder as características de ação
desses peptídeos, Laura Hideko Mishioka, farmacêutica
responsável no Brasil pelos produtos da Nu Skin, explica
que uma fórmula diferenciada foi desenvolvida. “O ativo
fica bem no centro do produto, podemos vê-lo dentro do frasco.
Ele forma uma espiral que aparece separada do resto do gel que também
tem ativos para beneficiar a pele”, afirma.
Mesmo
utilizando um aminoácido atípico, Mishioka diz que
não acredita que os consumidores entendam perfeitamente as
diferenças entre aminoácidos animais ou vegetais e
que isso não é quesito importante para eles escolherem
seus produtos. “Para que os consumidores tivessem essa capacidade,
seria necessário explicar muito bem de onde vêm e para
que servem os aminoácidos”. Segundo ela, as empresas
não agregam aminoácidos diferentes apenas por postura
de marketing, visto que esses elementos têm propriedades ímpares
e agem com função específica.
Indústria
do verde – A tendência dos aminoácidos
“verdes” é confirmada pelo Boticário.
“Atualmente, utilizamos, preferencialmente, os hidrolisados
de proteínas vegetais, como trigo, soja e aveia, em substituição
aos hidrolisados de proteínas animais”, diz Richard
Albert Santana Schwarzer, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento
do Boticário.
VitaCtive Emulsão Multiativa Anti-Sinais, produto lançado
pela empresa paranaense neste ano, apresenta em sua composição
os aminoácidos glicina, alanina, prolina, serina, treonina,
arginina e lisina. Serina é o aminoácido que está
presente em maior proporção na emulsão epicutânia
(substância que compõem a pele) natural das pessoas,
mas atua em sinergia com os demais aminoácidos (e outros
componentes da formulação), mantendo o nível
ideal de hidratação da pele. A emulsão também
apresenta uma proteína da soja, que ajuda a inibir a ação
das enzimas que degradam as fibras de sustentação
da pele (colágeno e elastina).
Para
tratamento dos cabelos, o Boticário fabrica a linha Universal
Solutions que reúne três extratos de proteínas
vegetais, trigo, soja e milho, como ingredientes vitais na recuperação
da saúde dos fios. O Condicionador Intensivo dessa linha
também possui a presença dos aminoácidos da
castanha do Brasil.
Mais
complexos
– As recentes formulações utilizam aminoácidos
complexos. Em síntese, eles são formados por um pool
de AAs essenciais para o cabelo ou para pele. Nesses complexos,
não há limitação para o uso de ativos,
desde que eles possam ser ligados quimicamente aos aminoácidos
e se estabilizem.
Esses
complexos podem representar para a indústria cosmética
nacional mais uma arma para concorrer contra a tecnologia de primeiro
mundo utilizada pelas empresas globais. “Tanto as brasileiras
quanto as multinacionais fazem uso de aminoácidos e proteínas
em seus produtos, que, portanto, não constituem diferencial
entre nacionais e importados”, diz Richard Albert Santana
Schwarzer, do Boticário.
O
que pode impedir o uso dessa nova arma complexa é, como sempre,
o preço. Enquanto que os aminoácidos custam entre
US$ 10 e US$ 50 o quilo (dependendo da procedência, os de
origem vegetal são mais caros) e as proteínas entre
US$ 10 e US$ 30, os complexos podem custar até US$ 200 o
quilo.
Competitividade
– De acordo com Christine Botto Valério, pesquisadora
de novas tecnologias da Nazca, atualmente as marcas multinacionais
vêm utilizando aminoácidos e proteínas com novas
tecnologias para aumentar sua substantividade, penetração
e efeito de longa duração, controlando sua liberação
no cabelo e na pele. “Isso é muito utilizado em produtos
anti-envelhecimento, anti-celulite e para cabelos danificados por
tratamentos químicos”, diz.
Segundo Valério, as proteínas e os aminoácidos
são agentes que tornam os produtos nacionais competitivos
em relação aos itens fabricados por multinacionais.
“Pode-se dizer que é um diferencial de produto. No
sentido mercadológico, mostra que a empresa incorporou mais
tecnologia ao produto”.
A
queratina está presente em todos os produtos para o cabelo
da Nazca, exceto na linha infantil. As linhas Plusline Therma Active,
Color Active e Blonde Active empregam também algum tipo de
proteína ou aminoácido para melhorar sua performance.
Color Active, por exemplo, promete cabelos 70% mais coloridos e
brilhantes, usando em sua formulação a
proteína hidrolisada do arroz.
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