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Especial Household
Concorrência vem de
fora
Redes internacionais de lavanderias forçam
profissionalização dos prestadores locais e acirram
a competitividade no mercado brasileiro
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Depois de trabalhar 18 anos como executivo financeiro
de uma multinacional do segmento alimentício, Eduardo Gallucci
decidiu investir num negócio próprio, porém
os altos valores das franquias e o retorno incerto levaram-no a
criar uma bandeira independente. Há quatro anos nasceu a
lavanderia Zip Clean e, segundo Gallucci, em menos de dois anos
o capital investido já havia sido recuperado.
Localizada
na zona sul de São Paulo, a Zip Clean lava em média
3,2 mil peças/mês, o que segundo o proprietário
é considerado baixo se comparado a outras lavanderias franquiadas.
"Porém, as margens de lucro variam muito de uma lavanderia
para outra. Eu optei por prestar um serviço bem qualificado
em 48h. Até posso lavar em uma hora mas não é
esse meu objetivo", explica. Com um faturamento de R$ 200 mil
ao ano, o ex-executivo planeja abrir novos pontos de coleta para
expandir sua marca. "Já era para ter feito isso o ano
passado, mas por questões financeiras ficou difícil
investir no novo ponto. Estou atrasado com esse projeto."
Gallucci acredita que a grande concorrência
obrigou as lavanderias a se tornarem mais ágeis e trabalharem
com menor margem de lucro. "Num raio de 1km tenho oito concorrentes,
desde lavanderias tradicionais do bairro até bandeiras internacionais
como a 5 à Sec", conta. Na sua opinião, para
vencer essa batalha a lavanderia precisa criar serviços agregados.
"Aqui, além do delivery, realizamos pequenos consertos
em roupas, malas e bolsas. Estou pensando em agregar novos produtos
(itens para limpeza e manutenção de calçados),
mas ainda está em estudo", justifica.
Histórias como a de Gallucci repetem-se
inúmeras vezes em todo o Brasil. Por isso, até mesmo
para a Associação Nacional de Empresas de Lavanderia
(Anel), é impossível dizer com certeza quantas lavanderias
estão em atividade no país. Só em São
Paulo/SP, entre pequenas lavanderias e grandes redes, existem cerca
de mil. Esse número não inclui as lavanderias que
faliram na década de 90, por causa da acirrada competição
no setor, causada pela chegada das lavanderias internacionais, o
que torna a trajetória de Gallucci e sua lavanderia emblemática
e privilegiada.
Redes como 5 à Sec, Dry Clean USA e Quality
Cleaners trouxeram não só competição,
mas também novos produtos, difundiram mais fortemente a lavagem
a seco e o serviço de coleta e entrega de roupas. No rastro
do boom de mercado que se avizinhava, as empresas que fornecem produtos
para lavagem profissional de roupas se animaram em ampliar a distribuição
de produtos com maior valor agregado. Quanto esse mercado fatura
é outro dado obscuro. A Anel prepara para os próximos
meses o primeiro estudo que pretende mapear a movimentação
do setor.

Lavar para fora
- O mercado de lavanderias pode ser dividido em três categorias:
lavanderias industriais, redes de lavanderias e lavanderias regionais
ou de pequeno porte. As lavanderias industriais atuam num segmento
específico: tratamento de roupas e lençóis
usados em hospitais, hotéis e toalhas de restaurantes, que
necessitam de métodos de lavagem capazes de tirar sujidades
extremas e desinfetar. A principal característica desse segmento
é o elevado grau de automação, aliado a produtos
de alto custo-benefício e lavagem com água em centrifugadoras
de alta potência que limpam mais profundamente os tecidos.
A categoria que mais se aproxima das lavanderias
industriais é a de redes de lavanderias. Nessa categoria,
onde se incluem as empresas nacionais e internacionais, o que conta
é preço baixo e serviço agregado, como por
exemplo o delivery (entrega e retirada de roupas). Essas redes,
geralmente lavam todo tipo de roupa doméstica, são
especialistas em manchas diversas, com forte na lavagem a seco.
Só se lava com água se o cliente exigir.
Pode-se dizer que as pequenas lavanderias são
as mais vulneráveis no mercado. Elas tiveram que mudar seu
foco de atuação durante a década passada, quando
as redes internacionais chegaram. Tiveram que se adequar ao novo
mercado, onde o que manda é o preço e por isso a competitividade
é maior. Também lavam a seco, em máquinas de
menor porte ou terceirizando o serviço.
Organização
- Até mesmo as empresas melhor organizadas tiveram que se
mexer para sobreviver. Esse é o caso da Laundromat. A empresa
foi fundada há 19 anos no Rio de Janeiro/RJ e hoje conta
com 130 lavanderias espalhadas pelo Brasil. No passado, para abrir
uma unidade da rede, era preciso comprar direito de uso da marca
e montar o serviço de acordo com o perfil da região
que seria atendida. Porém isso vem mudando.
"A Laundromat viu que sem organização,
começaria a perder mercado para as empresas internacionais",
diz uma fonte do setor. "Por isso, agora, eles estão
se preocupando em formar uma rede de verdade, com master-franqueador
e métodos próprios de lavagem." De acordo com
Cássio Rezende, diretor da Laundromat, o sistema de lavagem
principal utiliza a água, mesmo porque a empresa atua como
uma espécie de auto-serviço de lavagem, pelo qual
cada cliente lava suas próprias roupas com os equipamentos
e produtos oferecidos pela Laundromat.
Graças
ao apagão - De acordo com Rezende, em 2001, quando
foram iniciadas as mudanças de padrão visual nas lavanderias,
houve um crescimento na venda de franquias e a expectativa para
esse ano é abrir quatro lojas por mês. "A crise
de energia (quando as pessoas utilizaram menos as máquinas
de lavar em suas casas) refletiu num aumento de 30% nos serviços
prestados e ampliou muito o conhecimento do nosso sistema de lavagem",
acrescenta o diretor.
"O sistema Laundromat é a tradicional
lavagem com água, porém supera a lavagem doméstica
com vantagens tanto em economia quanto em qualidade", afirma
Rezende. Para quem não tem tempo de ficar esperando as etapas
das máquinas, há também a lavagem a seco, onde
pessoas treinadas pela empresa limpam roupas em até 48 horas.
Mercado saturado
- Caio Próspero, proprietário da rede de franquias
Sol & Sabão, revela que o mercado de lavanderias, tem
atualmente um panorama contraditório. "Em São
Paulo o segmento já está saturado, se tropeça
em lavanderias em cada esquina. Porém, as empresas encontram
seus espaços, buscando atendimento personalizado e utilizando
processos modernos", diz.
O
que Próspero chama de personalizar é tratar as roupas
com melhor análise do tecido e de cada sujeira. "Deve-se
analisar que tipo de manchas a roupa traz e daí escolher
o melhor método de lavagem", diz. A Sol & Sabão
tem 20 lojas em São Paulo, a maioria possui processo de lavagem
a seco e à água. A rede processa duas mil peças
por dia. Para se adquirir uma franquia da Sol & Sabão
é necessário investimento de R$ 30 mil a R$ 300 mil,
que depende do tamanho da unidade a ser aberta.
Força francesa
- De origem francesa e presente em 34 países, a 5 à
Sec talvez seja a empresa internacional que melhor se adaptou no
país. Em menos de dez anos de atuação, sua
rede já possui 160 unidades. A meta da empresa para os próximos
dois anos é atingir 300 unidades de lavanderias no Brasil.
Para isso, Nelcindo Antonio do Nascimento, dono dos direitos de
franquia no país, ataca em duas frentes: fidelização
dos consumidores e busca de investidores que querem abrir negócio
próprio.
No ano passado a rede até lançou
uma revista para se aproximar de seus clientes. Só no projeto
editorial foram investidos R$ 1,2 milhão. Além disso,
os preços mais baixos estão atraindo mais consumidores,
o que desperta o interesse de microempresários. No início
das atividades da 5 à Sec no país, a lavagem a seco
de um terno custava R$ 40, atualmente esse custo baixou para R$
15. "A praticidade e os preços atraem cada vez mais
pessoas que trabalham e não querem perder tempo com isso",
diz Nascimento.
Para se abrir uma unidade 5 à Sec, o
candidato precisa ter concluído o ensino médio e visitar
várias lojas para se familiarizar com as atividades das lavanderias.
Depois disso ele ainda passa por uma série de entrevistas
e se passar recebe uma proposta para adquirir uma franquia. O local
da loja e a sua capacidade são predeterminados pela empresa.
A franquia custa R$ 38 mil, e, dependendo do tamanho da loja, o
investimento pode girar entre R$ 290 mil e R$ 450 mil. O retorno
desse investimento demora entre 24 e 30 meses.
Melhor custo-benefício
- Os menores preços, fatores decisivos para escolha de um
serviço de lavanderia, podem ser atingidos por meio de dois
quesitos: produtos com maior custo-benefício e processos
que reduzem a energia utilizada na lavagem. Marcelo Freitas, diretor
e responsável pelo desenvolvimento de produtos da Planeta
Azul, diz que a chegada das empresas internacionais despertou entre
as lavanderias de menor porte a necessidade de utilização
de produtos mais eficientes e que reduzissem o tempo de lavagem.
"É verdade que algumas lavanderias
ainda não descobriram os benefícios de adquirir produtos
um pouco mais caros, porém mais eficientes, mas, boa parte
delas, em todo Brasil, está buscando a atualização",
afirma Freitas. "Por isso, além de produzir detergentes
e aditivos para lavagem, desenvolvemos treinamentos para os empresários
que querem atender melhor aos seus clientes".
Com
seus produtos, a Planeta Azul atende tanto as lavanderias que lavam
com água quanto as que utilizam processo a seco. O portfolio
da empresapossui detergentes, alvejantes sem cloro, amaciantes,
linha de pré-lavagem para tirar manchas, inibidores de transferência
de cor, capturadores de odores, desengraxantes e solventes, além
de hidratantes para couro. Sem revelar os números de produção
e faturamento, Freitas diz que a meta para esse ano é ampliar
a produção.
Sem água
- Vigorando quase que absoluto nas lavanderias modernas, o método
de lavagem a seco usa solventes (isoparafinas) no lugar da água.
A vantagem é a economia no consumo de água e ativo.
"Os circuitos fechados de lavagem a seco, que usam o percloroetileno
(um tipo de solvente), tem perda quase nula do produto", afirma
Aldir Rocha Mundin, da By Clean.
As máquinas de lavar que utilizam percloroetileno
têm aproveitamento de 99% do solvente utilizado. As empresas
repõem o produto, em média, duas vezes por ano. O
solvente custa em média R$ 800, por tambor de 500 kg. "O
que resta de resíduo dentro da máquina é recolhido
pela empresa fornecedora, que o destrói em equipamentos especiais,
portanto nada é despejado na natureza", explica Mundin.
O percloroetileno concorre no mercado com outro solvente: o hidrocarboneto.
Esse tipo de solvente é utilizado em sistema de lavagem aberto
e por isso alguns profissionais do setor dizem que ele não
é tão eficiente quanto o concorrente. Esse sistema
é menos utilizado pelas lavanderias.
Água
e solvente - A tendência para o futuro é
o sistema híbrido de lavagem. Conhecido como acqua clean,
esse sistema ainda é pouco conhecido no Brasil. Por aqui,
a Ecolab é pioneira nesse segmento e firmou parceria com
a Eletrolux, fabricante de máquinas que operam no sistema
acqua clean, para difundir esse método de lavagem. De acordo
com Ottorino Scotto Neto, gerente de contas para o segmento de lavanderias
da Ecolab, o sistema ainda demora para ser utilizado em larga escala.
"O acqua clean alia a eficiência
da água para tirar certas machas e a rapidez dos solventes
para limpar as roupas", diz. De acordo com Scotto, atualmente
existem apenas 20 máquinas operando no Brasil. O segmento
de lavanderias da Ecolab representa 3% do faturamento geral no país,
ou seja, R$ 1,5 milhão.
Automáticas
- No Brasil, a JohnsonDiversey, empresa que surgiu no ano passado
quando a Johnson Wax comprou da Unilever a divisão Diversey
Lever, embora tenha uma área responsável pelo atendimento
de redes de lavandeiras, tem seu maior volume de vendas no segmento
industrial. "Temos uma linha completa composta por 29 produtos,
entre detergentes, alvejantes, amaciantes, removedores de gordura
e graxa e neutralizadores diversos", afirma Adriano Guilherme
Lowenstein, gerente de desenvolvimento de negócios.
"A
JohnsonDiversey opera no ramo de lavagem a água e seu maior
volume de vendas concentra-se em lavanderias industriais, hospitalares
e hoteleiras. Temos também uma área específica
voltada para o atendimento de redes, principalmente para grandes
cadeias como Laundromat e Dry Clean USA", afirma Lowenstein.
De acordo com o gerente, a JohnsonDiversey teve crescimento de 20%
em suas vendas no ano passado, comparando-se com 2001. "Para
este ano buscamos um crescimento de mais 20%", afirma Lowenstein.
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Lavar
roupa suja fora de casa
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No mercado de lavanderias também
há espaço para quem terceiriza o serviço
de lavagem. Pode-se dizer que existem dois tipos de lavanderias
que utilizam a terceirização. Na primeira situação,
a lavanderia possui apenas pontos de coleta, sem investir
em equipamentos de lavagem. Neste caso, todas as roupas são
lavadas por terceiro. Numa outra situação, as
lavanderias prestam serviços mais simples de lavagem
e terceirizam serviços que exigem maior investimento
em tecnologia, como retirada específica de manchas,
lavagem de tapetes e materiais de couro, e a lavagem a seco.
Tsuyoshi Matsubara, gerente da Lavanderia
Santo Amaro, há 24 anos no mercado, conta que presta
serviço para outras lavanderias há dois anos.
"Esse tipo de atuação é mais difícil
porque requer grande profissionalismo e rapidez", afirma
Matsubara. "Temos que ter cuidado redobrado e não
podemos ultrapassar o período de 48 horas para entrega
das peças." Segundo ele, a empresa tem capacidade
para lavar 3,7 mil peças por dia, sem contar a lavagem
de cortinas. A empresa possui cerca de 20 clientes neste segmento,
na capital paulista.
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