FCE Cosmetique
 
 , 8 de Fevereiro de 2012
   Revista - H&C - Household & Cosméticos
Ano IV - nº 18 - Jan/Fev - 2003 


Especial Household
Concorrência vem de fora
Redes internacionais de lavanderias forçam profissionalização dos prestadores locais e acirram a competitividade no mercado brasileiro
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Depois de trabalhar 18 anos como executivo financeiro de uma multinacional do segmento alimentício, Eduardo Gallucci decidiu investir num negócio próprio, porém os altos valores das franquias e o retorno incerto levaram-no a criar uma bandeira independente. Há quatro anos nasceu a lavanderia Zip Clean e, segundo Gallucci, em menos de dois anos o capital investido já havia sido recuperado.

Localizada na zona sul de São Paulo, a Zip Clean lava em média 3,2 mil peças/mês, o que segundo o proprietário é considerado baixo se comparado a outras lavanderias franquiadas. "Porém, as margens de lucro variam muito de uma lavanderia para outra. Eu optei por prestar um serviço bem qualificado em 48h. Até posso lavar em uma hora mas não é esse meu objetivo", explica. Com um faturamento de R$ 200 mil ao ano, o ex-executivo planeja abrir novos pontos de coleta para expandir sua marca. "Já era para ter feito isso o ano passado, mas por questões financeiras ficou difícil investir no novo ponto. Estou atrasado com esse projeto."

Gallucci acredita que a grande concorrência obrigou as lavanderias a se tornarem mais ágeis e trabalharem com menor margem de lucro. "Num raio de 1km tenho oito concorrentes, desde lavanderias tradicionais do bairro até bandeiras internacionais como a 5 à Sec", conta. Na sua opinião, para vencer essa batalha a lavanderia precisa criar serviços agregados. "Aqui, além do delivery, realizamos pequenos consertos em roupas, malas e bolsas. Estou pensando em agregar novos produtos (itens para limpeza e manutenção de calçados), mas ainda está em estudo", justifica.

Histórias como a de Gallucci repetem-se inúmeras vezes em todo o Brasil. Por isso, até mesmo para a Associação Nacional de Empresas de Lavanderia (Anel), é impossível dizer com certeza quantas lavanderias estão em atividade no país. Só em São Paulo/SP, entre pequenas lavanderias e grandes redes, existem cerca de mil. Esse número não inclui as lavanderias que faliram na década de 90, por causa da acirrada competição no setor, causada pela chegada das lavanderias internacionais, o que torna a trajetória de Gallucci e sua lavanderia emblemática e privilegiada.

Redes como 5 à Sec, Dry Clean USA e Quality Cleaners trouxeram não só competição, mas também novos produtos, difundiram mais fortemente a lavagem a seco e o serviço de coleta e entrega de roupas. No rastro do boom de mercado que se avizinhava, as empresas que fornecem produtos para lavagem profissional de roupas se animaram em ampliar a distribuição de produtos com maior valor agregado. Quanto esse mercado fatura é outro dado obscuro. A Anel prepara para os próximos meses o primeiro estudo que pretende mapear a movimentação do setor.

Lavar para fora - O mercado de lavanderias pode ser dividido em três categorias: lavanderias industriais, redes de lavanderias e lavanderias regionais ou de pequeno porte. As lavanderias industriais atuam num segmento específico: tratamento de roupas e lençóis usados em hospitais, hotéis e toalhas de restaurantes, que necessitam de métodos de lavagem capazes de tirar sujidades extremas e desinfetar. A principal característica desse segmento é o elevado grau de automação, aliado a produtos de alto custo-benefício e lavagem com água em centrifugadoras de alta potência que limpam mais profundamente os tecidos.

A categoria que mais se aproxima das lavanderias industriais é a de redes de lavanderias. Nessa categoria, onde se incluem as empresas nacionais e internacionais, o que conta é preço baixo e serviço agregado, como por exemplo o delivery (entrega e retirada de roupas). Essas redes, geralmente lavam todo tipo de roupa doméstica, são especialistas em manchas diversas, com forte na lavagem a seco. Só se lava com água se o cliente exigir.

Pode-se dizer que as pequenas lavanderias são as mais vulneráveis no mercado. Elas tiveram que mudar seu foco de atuação durante a década passada, quando as redes internacionais chegaram. Tiveram que se adequar ao novo mercado, onde o que manda é o preço e por isso a competitividade é maior. Também lavam a seco, em máquinas de menor porte ou terceirizando o serviço.

Organização - Até mesmo as empresas melhor organizadas tiveram que se mexer para sobreviver. Esse é o caso da Laundromat. A empresa foi fundada há 19 anos no Rio de Janeiro/RJ e hoje conta com 130 lavanderias espalhadas pelo Brasil. No passado, para abrir uma unidade da rede, era preciso comprar direito de uso da marca e montar o serviço de acordo com o perfil da região que seria atendida. Porém isso vem mudando.

"A Laundromat viu que sem organização, começaria a perder mercado para as empresas internacionais", diz uma fonte do setor. "Por isso, agora, eles estão se preocupando em formar uma rede de verdade, com master-franqueador e métodos próprios de lavagem." De acordo com Cássio Rezende, diretor da Laundromat, o sistema de lavagem principal utiliza a água, mesmo porque a empresa atua como uma espécie de auto-serviço de lavagem, pelo qual cada cliente lava suas próprias roupas com os equipamentos e produtos oferecidos pela Laundromat.

Graças ao apagão - De acordo com Rezende, em 2001, quando foram iniciadas as mudanças de padrão visual nas lavanderias, houve um crescimento na venda de franquias e a expectativa para esse ano é abrir quatro lojas por mês. "A crise de energia (quando as pessoas utilizaram menos as máquinas de lavar em suas casas) refletiu num aumento de 30% nos serviços prestados e ampliou muito o conhecimento do nosso sistema de lavagem", acrescenta o diretor.

"O sistema Laundromat é a tradicional lavagem com água, porém supera a lavagem doméstica com vantagens tanto em economia quanto em qualidade", afirma Rezende. Para quem não tem tempo de ficar esperando as etapas das máquinas, há também a lavagem a seco, onde pessoas treinadas pela empresa limpam roupas em até 48 horas.

Mercado saturado - Caio Próspero, proprietário da rede de franquias Sol & Sabão, revela que o mercado de lavanderias, tem atualmente um panorama contraditório. "Em São Paulo o segmento já está saturado, se tropeça em lavanderias em cada esquina. Porém, as empresas encontram seus espaços, buscando atendimento personalizado e utilizando processos modernos", diz.

O que Próspero chama de personalizar é tratar as roupas com melhor análise do tecido e de cada sujeira. "Deve-se analisar que tipo de manchas a roupa traz e daí escolher o melhor método de lavagem", diz. A Sol & Sabão tem 20 lojas em São Paulo, a maioria possui processo de lavagem a seco e à água. A rede processa duas mil peças por dia. Para se adquirir uma franquia da Sol & Sabão é necessário investimento de R$ 30 mil a R$ 300 mil, que depende do tamanho da unidade a ser aberta.

Força francesa - De origem francesa e presente em 34 países, a 5 à Sec talvez seja a empresa internacional que melhor se adaptou no país. Em menos de dez anos de atuação, sua rede já possui 160 unidades. A meta da empresa para os próximos dois anos é atingir 300 unidades de lavanderias no Brasil. Para isso, Nelcindo Antonio do Nascimento, dono dos direitos de franquia no país, ataca em duas frentes: fidelização dos consumidores e busca de investidores que querem abrir negócio próprio.

No ano passado a rede até lançou uma revista para se aproximar de seus clientes. Só no projeto editorial foram investidos R$ 1,2 milhão. Além disso, os preços mais baixos estão atraindo mais consumidores, o que desperta o interesse de microempresários. No início das atividades da 5 à Sec no país, a lavagem a seco de um terno custava R$ 40, atualmente esse custo baixou para R$ 15. "A praticidade e os preços atraem cada vez mais pessoas que trabalham e não querem perder tempo com isso", diz Nascimento.

Para se abrir uma unidade 5 à Sec, o candidato precisa ter concluído o ensino médio e visitar várias lojas para se familiarizar com as atividades das lavanderias. Depois disso ele ainda passa por uma série de entrevistas e se passar recebe uma proposta para adquirir uma franquia. O local da loja e a sua capacidade são predeterminados pela empresa. A franquia custa R$ 38 mil, e, dependendo do tamanho da loja, o investimento pode girar entre R$ 290 mil e R$ 450 mil. O retorno desse investimento demora entre 24 e 30 meses.

Melhor custo-benefício - Os menores preços, fatores decisivos para escolha de um serviço de lavanderia, podem ser atingidos por meio de dois quesitos: produtos com maior custo-benefício e processos que reduzem a energia utilizada na lavagem. Marcelo Freitas, diretor e responsável pelo desenvolvimento de produtos da Planeta Azul, diz que a chegada das empresas internacionais despertou entre as lavanderias de menor porte a necessidade de utilização de produtos mais eficientes e que reduzissem o tempo de lavagem.

"É verdade que algumas lavanderias ainda não descobriram os benefícios de adquirir produtos um pouco mais caros, porém mais eficientes, mas, boa parte delas, em todo Brasil, está buscando a atualização", afirma Freitas. "Por isso, além de produzir detergentes e aditivos para lavagem, desenvolvemos treinamentos para os empresários que querem atender melhor aos seus clientes".

Com seus produtos, a Planeta Azul atende tanto as lavanderias que lavam com água quanto as que utilizam processo a seco. O portfolio da empresapossui detergentes, alvejantes sem cloro, amaciantes, linha de pré-lavagem para tirar manchas, inibidores de transferência de cor, capturadores de odores, desengraxantes e solventes, além de hidratantes para couro. Sem revelar os números de produção e faturamento, Freitas diz que a meta para esse ano é ampliar a produção.

Sem água - Vigorando quase que absoluto nas lavanderias modernas, o método de lavagem a seco usa solventes (isoparafinas) no lugar da água. A vantagem é a economia no consumo de água e ativo. "Os circuitos fechados de lavagem a seco, que usam o percloroetileno (um tipo de solvente), tem perda quase nula do produto", afirma Aldir Rocha Mundin, da By Clean.

As máquinas de lavar que utilizam percloroetileno têm aproveitamento de 99% do solvente utilizado. As empresas repõem o produto, em média, duas vezes por ano. O solvente custa em média R$ 800, por tambor de 500 kg. "O que resta de resíduo dentro da máquina é recolhido pela empresa fornecedora, que o destrói em equipamentos especiais, portanto nada é despejado na natureza", explica Mundin. O percloroetileno concorre no mercado com outro solvente: o hidrocarboneto. Esse tipo de solvente é utilizado em sistema de lavagem aberto e por isso alguns profissionais do setor dizem que ele não é tão eficiente quanto o concorrente. Esse sistema é menos utilizado pelas lavanderias.

Água e solvente - A tendência para o futuro é o sistema híbrido de lavagem. Conhecido como acqua clean, esse sistema ainda é pouco conhecido no Brasil. Por aqui, a Ecolab é pioneira nesse segmento e firmou parceria com a Eletrolux, fabricante de máquinas que operam no sistema acqua clean, para difundir esse método de lavagem. De acordo com Ottorino Scotto Neto, gerente de contas para o segmento de lavanderias da Ecolab, o sistema ainda demora para ser utilizado em larga escala.

"O acqua clean alia a eficiência da água para tirar certas machas e a rapidez dos solventes para limpar as roupas", diz. De acordo com Scotto, atualmente existem apenas 20 máquinas operando no Brasil. O segmento de lavanderias da Ecolab representa 3% do faturamento geral no país, ou seja, R$ 1,5 milhão.

Automáticas - No Brasil, a JohnsonDiversey, empresa que surgiu no ano passado quando a Johnson Wax comprou da Unilever a divisão Diversey Lever, embora tenha uma área responsável pelo atendimento de redes de lavandeiras, tem seu maior volume de vendas no segmento industrial. "Temos uma linha completa composta por 29 produtos, entre detergentes, alvejantes, amaciantes, removedores de gordura e graxa e neutralizadores diversos", afirma Adriano Guilherme Lowenstein, gerente de desenvolvimento de negócios.

"A JohnsonDiversey opera no ramo de lavagem a água e seu maior volume de vendas concentra-se em lavanderias industriais, hospitalares e hoteleiras. Temos também uma área específica voltada para o atendimento de redes, principalmente para grandes cadeias como Laundromat e Dry Clean USA", afirma Lowenstein. De acordo com o gerente, a JohnsonDiversey teve crescimento de 20% em suas vendas no ano passado, comparando-se com 2001. "Para este ano buscamos um crescimento de mais 20%", afirma Lowenstein.

 

Lavar roupa suja fora de casa

No mercado de lavanderias também há espaço para quem terceiriza o serviço de lavagem. Pode-se dizer que existem dois tipos de lavanderias que utilizam a terceirização. Na primeira situação, a lavanderia possui apenas pontos de coleta, sem investir em equipamentos de lavagem. Neste caso, todas as roupas são lavadas por terceiro. Numa outra situação, as lavanderias prestam serviços mais simples de lavagem e terceirizam serviços que exigem maior investimento em tecnologia, como retirada específica de manchas, lavagem de tapetes e materiais de couro, e a lavagem a seco.

Tsuyoshi Matsubara, gerente da Lavanderia Santo Amaro, há 24 anos no mercado, conta que presta serviço para outras lavanderias há dois anos. "Esse tipo de atuação é mais difícil porque requer grande profissionalismo e rapidez", afirma Matsubara. "Temos que ter cuidado redobrado e não podemos ultrapassar o período de 48 horas para entrega das peças." Segundo ele, a empresa tem capacidade para lavar 3,7 mil peças por dia, sem contar a lavagem de cortinas. A empresa possui cerca de 20 clientes neste segmento, na capital paulista.

 

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