Especial Household
Caro demais para o Brasil
Não há dúvida que o
mercado de limpeza doméstica precisa se desenvolver para
fugir da saturação. A elevação da tecnologia
dos produtos pode ser um dos caminhos para isso, mas há uma
pedra no meio do caminho, o alto preço
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"E
agora José?" O verso de Carlos Drummond de Andrade cai
como uma luva para as indústrias de limpeza doméstica
que buscam crescimento. De um lado, a saturação de
produtos no segmento induz à saída estratégica
de investir na inovação. De outro, o baixo poder de
compra dos brasileiros obriga os fabricantes a manterem preços
competitivos. A saída, então, é oferecer produtos
inovadores com preço baixo. Por isso, os itens mais sofisticados
não encontram mercado no varejo. Pesquisa realizada pela
ACNielsen mostrou que os itens de cuidados com a casa são
os primeiros a sofrerem o impacto da crise no bolso do consumidor.
Depois
da alta desvalorização do real frente ao dólar,
em janeiro de 99, multinacionais investiram na introdução
de produtos com alto valor agregado no mercado brasileiro, numa
tentativa de recuperação do faturamento mensurado
em moeda estrangeira. As indústrias nacionais seguiram essa
tendência. Novidades práticas e funcionais, com preço
mais alto do que os produtos tradicionais, ocuparam grande parte
de nossas gôndolas, porém por pouco tempo. Em 2001,
uma nova onda de recessão atingiu o mundo, conseqüentemente,
nosso país. Hoje, esses produtos inovadores e sofisticados
mal aparecem em nossas prateleiras. Alguns até desapareceram.
Saída
pela tecnologia
- De acordo com avaliação dos fornecedores de matérias-primas
do setor, o que domina o mercado de limpeza no Brasil é o
menor preço. Não há espaço para o inovador
se isso significar alto desembolso. Mesmo com esse cenário,
o segmento é promissor. Segundo estimativas da ACNielsen,
seu faturamento neste ano deve chegar a R$ 6,27 bilhões.
"A indústria precisa investir em tecnologia para fugir
da saturação, mas a concorrência pelo menor
preço é uma barreira", diz Nelson Mammana, gerente
de contas para a área de Home And Personal Care da Ciba,
fornecedora de especialidades químicas.
Manlio
Gallotti, coordenador para Key Accounts e responsável técnico
da Clariant para AL, concorda com essa avaliação.
"É bastanteinteressante para o mercado que os produtos
de limpeza tenham cada vez mais especialidades capazes de melhorar
a vida do consumidor e aumentar o mercado" diz Gallotti. No
entanto, segundo o coordenador, os itens diferenciados são
os primeiros a serem cortados das cestas de compras num cenário
de crise. "Nessas épocas as pessoas acabam voltando
para os mais básicos", acrescenta.
Limpeza
com praticidade - Mesmo sem muito dinheiro para
gastar com limpeza doméstica, o consumidor é ávido
por novidades que trazem praticidade ao dia a dia do cuidado com
a casa. Pensando nisso, a Reckitt Benckiser, que é líder
no segmento multiuso, lançou Veja Paninhos. Logo em seguida,
foi a vez da Bombril fazer o mesmo movimento, introduzindo Pratice
Paninhos, em maio deste ano. "Até agora as vendas estão
regulares, mas ainda muito abaixo do seu potencial", diz Cristiane
Duarte, gerente de produto da Bombril.
Duarte
acredita que é questão de tempo para que os consumidores
percebam melhor os benefícios dos paninhos. "Veja é
líder nesse segmento porque foi o primeiro a chegar ao mercado,
mas o nosso produto possui o diferencial dos microfuros que ajudam
a remover a sujeira, por isso acreditamos que conquistaremos essa
posição", afirma. Para impulsionar o atingimento
da meta, em 2003 a Bombril promete investir em publicidade valor
semelhante ao que foi destinado para trazer a linha Pratice ao mercado,
ou seja R$ 30 milhões.
Ainda
na disputa com a marca líder, a Bombril quer aumentar a participação
de Pratice desengordurante bifásico, que limpa e perfuma.
O mercado de desengordurantes movimenta cerca de 6 mil toneladas
por ano, segundo a ACNielsen. "Hoje detemos 5% desse volume,
o dobro do que possuíamos em 2001", diz Duarte. No ano
passado, os limpadores da empresa eram comercializados sob a marca
Bom Bril.
Consumidor
exigente - Segundo Pedro Silva, diretor de relações
externas da Procter & Gamble, os consumidores estão mais
exigentes quanto à qualidade e praticidade dos produtos que
compram. "Isso obriga a indústria a trazer novas tecnologias
e inovações para seus produtos cada vez mais rápido
para atender necessidades específicas", diz o executivo.
No ano passado a P&G lançou Bold com amaciante, que detém
4,2% de participação em volume no mercado.
O
portfolio de detergentes em pó da P&G ainda conta com
Ariel (4,0%), que removemanchas mais difíceis, Ace (5,9%),
que segundo a empresa é ideal para tirar o encardido, e Pop
(2,5%), que pode ser usado para limpeza da roupa e da casa. Mas
apesar da empresa tentar cobrir todas as necessidades dos consumidores,
"o preço é um fator decisivo na hora da compra".
A
Reckitt Benckiser faz seus lances para melhorar as vendas de seus
produtos diferenciados, aumentando volume por unidade. Vanish, alvejante
sem cloro, ganhou versão tamanho família com 1,5 litro.
O preço sugerido é de R$ 4,60, 39% mais caro que a
versão 500 ml. Com essa versão a empresa tem como
objetivo aumentar a participação da marca no nicho
de alvejantes sem cloro. Vanish é uma marca global que, segundo
a Reckitt Benckiser, "encontra grandes oportunidades de consolidar
seu sucesso mundial."
Debutante
x veterano - A Unilever também quer conquistar
o mesmo sucesso obtido no exterior com o limpador Cif, presente
em 53 países, lançado por aqui neste ano. Cif tem
como principal diferencial o oxigênio ativo que "faz
a sujeira se desprender mais facilmente das superfícies".
A versão limpeza pesada custa cerca de R$ 2,80, 14% a mais
que o similar Veja da Reckitt Benckiser.
"Não
queremos tomar o lugar de Veja, que detém quase 60% do mercado",
diz Mara Pezzotti, gerente de marketing. "Nossa meta é
crescer nos outros 40% ou 50% que restam", acrescenta. A empresa
anglo-holandesa investiu R$ 10 milhões para o lançamento
da marca, pretendendo despertar "novos consumidores".
"Acho que as pessoas estão mais 'antenadas' quanto ao
custo-benefício dos produtos", afirma a gerente.
Valor
agregado no porta-a-porta - No canal direto, as empresas também
investem nas especialidades. A Tupperware passou a distribuir nesse
canal o sistema de remoção de sujeira por estática
da Procter & Gamble, Swiffer, que foi lançado no país
e teve sua venda nos supermercados descontinuada. A Tupperware importa
o item dos Estados Unidos e o vende por encomenda.
Desde
1991, outra empresa que vende limpadores por esse canal de distribuição
é a Amway, com a linha Limpador Orgânico Concentrado
(L.O.C.). As vendas desses itens correspondem a 20% do faturamento
da empresa no país. "Todos os itens da linha são
concentrados, biodegradáveis, fáceis de enxaguar e
muito eficientes na remoção da sujeira e gorduras",
diz Mônica Costa, gerente de marketing. Com todos essas características,
o preço é bem maior que os similares do varejo. A
versão Pursue, limpador sanitário, segundo a empresa,
possui ácidos orgânicos, para tirar manchas sem agredir
as mãos, e Neutralodor, contra os maus odores, custa R$29,57.
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