FCE Cosmetique
 
 , 8 de Fevereiro de 2012
   Artigos Técnicos

Umectantes
Por Ricardo Pedro

A pele humana contém aproximadamente 80% de água em sua constituição, distribuída na proporção de aproximadamente 80% na derme e 10 a 15% no extrato córneo. Sua concentração varia conforme diversos fatores externos e internos, tais como temperatura, exposição solar, vento, uso de detergentes, banhos prolongados, contato com determinadas fibras sintéticas, uso de medicamentos, entre outros.

A derme, que concentra a maior parte da água presente na pele, possui em sua constituição diversos compostos químicos, dentre eles as glicosaminoglicanas e proteínas, constituintes da matriz extracelular. Estes compostos são os principais responsáveis pela hidratação da pele e se relacionam à hidratação natural da mesma. A quantidade e qualidade da hidratação natural da pele, também chamada de fator de hidratação natural (NMF), e do sebo cutâneo presentes na mesma interferem no seu grau de hidratação.

O sebo cutâneo faz parte de um filme protetor composto de 50 a 60% de triglicerídeos, 25% de ceras, 12% de esqualeno, 2% de ésteres de colesterol e 10% de ácidos graxos livres, que juntamente com a queratina constituem o regulador hídrico cutâneo, também chamado de manto hidrolipídico. O NMF é uma emulsão A/O composta por suor e sebo cutâneo com função de regular a hidratação superficial do estrato córneo. A composição básica do NMF é 7% de uréia, 12% de PCA, 18% de íons (cloreto, potássio e sódio), 12% de ácido láctico e seus sais, 9 a 13% de aminoácido serina, 3 a 6% de alanina, 5 a 7% de citrulina e 1 a 4% de treonina, 13 a 22% são da soma de outros aminoácidos como histidina, glicina, leucina, lisina, fenilanina, tirosina, valina, ácido glutâmico e ácido urocânico.

A quantidade de água na pele se reduz com o aumento da idade, devido às mudanças estruturais sofridas pela mesma. Várias alterações na pele podem levar a sua desidratação e, como conseqüência, a sensações de desconforto, estiramento, perda de sedosidade, brilho e maciez, presença ou aumento de rugas, descamação, perda de elasticidade e sensibilidade. As alterações dermatológicas percebidas são relativas ao micro-relevo cutâneo, alterações biomecânicas diversas e na função de barreira, hiperqueratose e aumento da sensibilidade.

Os umectantes são substâncias higroscópicas que têm a propriedade de reter água na pele e nos produtos cosméticos. Têm como funções:

  • Diminuir a perda de água dos produtos acabados e impedir a ruptura e formação de crostas superficiais na emulsão;
  • Facilitar a distribuição e ação lubrificante dos cremes sobre a epiderme;
  • Em alguns cremes, atuar melhorando a aderência dos pós na epiderme;
  • Reter a umidade junto à pele, prevenindo o seu ressecamento.

As características de um umectante ideal para uso em emulsões cosméticas se resumem em:

  • Elevada higroscopicidade: alta capacidade de reter água;
  • Devem possuir um pequeno intervalo de umectação: para uma determinada mudança de umidade relativa no ambiente, a variação no conteúdo de umidade deve ser mínima;
  • Compatibilidade com outros componentes e facilidade de incorporação na formulação, apresentando baixa viscosidade, baixo ponto de congelamento e não interferir drasticamente nas características físicas da formulação;
  • Baixa volatilidade;
  • Baixa toxicidade;
  • Baixo custo.

Substâncias fortemente higroscópicas retêm água em atmosferas úmidas, mas cedem essa água facilmente em atmosferas com baixo teor de umidade. Um bom umectante deve equilibrar a umidade do substrato com o meio, de modo que a troca seja a menor possível.

Compostos hidroxilados, polióis e poliéteres, em geral, são excelentes umectantes, devido ao fato destes formarem ligações de hidrogênio com a água. Dentre os principais umectantes destacam-se a glicerina, os poliglicóis, os sacarídeos e polissacarídeos, os derivados de ácidos carboxílicos, os aminoácidos e seus complexos, os extratos vegetais, entre outros.

O sorbitol, um dos umectantes mais amplamente utilizados em formulações cosméticas, é menos higroscópico que a glicerina, mas perde menos água que esta quando passa de uma atmosfera úmida para outra seca. O balanço entre higroscopicidade e perda de água é que torna determinado composto químico um bom umectante ou não, característica que é dependente também da formulação da qual o umectante faz parte, em outras palavras, dependente dos demais constituintes da fórmula cosmética. Por exemplo, a velocidade de perda de água dos cremes não depende somente dos umectantes, mas também dos emulsionantes. Em cremes emulsionados com sabões de ácido esteárico (emulsões aniônicas), que são os maiores causadores de crostas e perda de água, o sorbitol retarda essa perda, ao passo que a glicerina e o propilenoglicol devem ser empregados em maior proporção para obtenção do mesmo efeito (quantidades a partir de 10%). Nos cremes emulsionados com emulsionantes não iônicos, esta diferença é menos pronunciada e quaisquer umectantes são efetivos, mesmo que em baixas concentrações (2 a 5%) em qualquer nível de umidade relativa do ar. Os cremes com emulsionantes não iônicos se mantêm plásticos e homogêneos, pois não ocorrem fenômenos de cristalização, devido à maior retenção de água.

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 Referências bibliograficas

  • Becher, P. “Emulsions: Theory and Practice”, 2ª Ed., Reinhold Publishing Corp., New York, 1965.

    Sanctis, D. F. S. de, “Aspectos técnicos e práticos para o desenvolvimento de produtos cosméticos emulsionados”, Curso de Cosmetologia Express, Racine, São Paulo, 2003.
    Pedro, R., “Química Orgânica aplicada a produtos cosméticos”, Curso de Cosmetologia Express, Racine, São Paulo, 2000.

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